Capítulo 82

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Vanessa Aguiar

Sinto o meu corpo contra algo macio, mas um gosto estranho, amargo, na boca. Ainda sinto meu corpo pesado e, ao mesmo tempo, dolorido, quanto tempo eu fiquei apagada? Será que essa droga de noite infernal não vai acabar? Eu quero ir para casa.

Isso me lembra que quando eu estava saindo do morro, sendo levada pelos "policiais", estava tendo uma invasão lá, espero que o Elfo esteja bem, eu ficaria muito mal se algo acontecesse com ele por minha causa.

Tento respirar fundo, mas até isso parece difícil. Que droga foi essa que aquela mulher colocou no meu organismo, sinto como se estivesse com tudo dormente e eu preciso acordar direito, ver onde estou e pensar em uma forma eficaz de sair daqui. Não só fugir, mas como fugir e levar a Carol, eu realmente me preocupo com o que ela pode ter feito com a minha irmã durante todo esse tempo.

— Vanessa? — Escuto a voz da Carol tão baixa e fraca que não sei se é um delírio ou realmente a minha irmã falando comigo.

Respiro fundo e conto até mentalmente, preciso me concentrar e acordar de vez. Abro os olhos e agradeço a claridade não ser muita ou doeria os olhos e vejo que estou deitada na cama, mas esse não é o quarto que era meu. Me sento na cama e me deparo com a Carol em pé ao lado da cama.

Eu sabia que a situação poderia ser ruim, mas está pior do que eu poderia sonhar. Ela está magra demais, machucada, o cabelo cortado de um jeito estranho. Tento não transparecer, mas está claro que eu estou assustada.

O que a Eliza tem feito?

— Está tudo bem, eu estou melhorando — Ela fala em um tom de voz triste.

— Como assim melhorando? — Pergunto e a minha voz sai mais arranhada do que eu esperava, preciso beber água.

— Eu comecei a cooperar com o que ela queria, e ela passou a me dar mais coisas, mais comida, me dopar menos, e o Roberto não tem aparecido para as sessões de agressões — Ela fala com tanta calma, que eu me assusto com a naturalidade disso.

Eu sinto um nó na minha garganta e deixo algumas lágrimas escaparem e a Carol senta ao meu lado e me abraça, eu queria tanto que as coisas não fossem assim, queria tanto ter o direito de viver em paz.

— Isso não deveria ser assim, não... — Eu falo chorando e tento respirar fundo, mas não consigo nenhum pouco.

— Pode chorar, depois nós conversamos sobre tudo, tá bom? — Ela diz, me consolando e eu só aceno.

Eu me sinto um completo caos, uma mistura de tudo e eu... eu sinto como se estivesse chegado ao meu limite, sequestro atrás de sequestro, como pode uma pessoa viver assim? Como eu pude ser tão azarada ao ponto de ter uma mãe que é completamente maluca? A verdade é que nem eu e nem a Carol deveríamos estar passando por isso.

Quando eu sair daqui, porque eu vou sair daqui, a primeira coisa que eu vou fazer, vai ser abrir um boletim contra a Eliza.

— Como você veio parar aqui? — Eu pergunto, me afastando dela.

— Ela mandou me buscar onde eu estava — Ela suspira se levantando — Eu fui para os Estados em fuga, mas chegando lá, fui pega por um cara aleatório que estava me seguindo a mando da Eliza, me colocaram um jatinho particular e eu fui trazida para cá.

— Ela é muito pior do que eu pensava — Eu respondo me encolhendo na cama — Você está muito magra.

— Eu sei, mas você sabe o quanto ela é obcecada pelo corpo magro — Ela diz e eu aceno.

Eu fecho meus olhos por um segundo, já consegui fugir dessa casa antes, não vai ser agora que não vou conseguir, só preciso pensar com calma em como eu vou fazer isso. Eu não vou suportar passar por tudo aqui de novo, se bem que dessa vez parece ainda pior.

Anatomia do Caos - MorroOnde histórias criam vida. Descubra agora