Capítulo 43

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Vanessa Aguiar

Faço o que a Manuela tem me dito para fazer desde o primeiro dia, saio de casa. O Ninja se ofereceu para me acompanhar, mas eu não quis. Não acho que alguma coisa pode acontecer aqui dentro do morro, tudo bem que não estou levando em consideração o fato de que aqui tem seus próprios perigos e que tem uma garota que me odeia e que eu machuquei por aí, mas tudo bem. Eu acho que posso lidar.

Vejo uma sorveteria pequena e decido ir até lá, não é fácil lidar com o calor do Rio não é uma tarefa fácil, até coloquei um short e uma camisa mais larga. E acabei abandonando a missão de lavar roupa para depois, porque queria andar um pouco. Tudo o que a Manuela me disse, me deixou muito pensativa.

Será que de alguma forma eu realmente faria mal para o Elfo? Eu tenho certeza que ele sabe se defender, mas eu não quero de forma alguma machucar ele. Respiro fundo, talvez eu esteja sendo prepotente, talvez não haja esse interesse todo, são tantos "talvez", acho que até eu estou um pouco confusa com tudo.

Entro na sorveteria e escolho um picolé e pago, mas me sento em uma das cadeiras que tem do lado de fora, eu não sei o que eu poderia estar fazendo agora, acho que eu não deveria ter me estranhado com a Manuela, ela poderia estar me apresentando tudo por aqui.

— Só finge naturalidade — Uma mulher diz sentando à mesa junto comigo.

— Farei o meu melhor — Respondo um pouco assustada e ela ri.

— Você não é muito boa atriz — Ela diz, seu rosto está virado na minha direção, mas seus olhos estão em outro lugar — E eu tenho certeza que você não é daqui.

— Não, não sou — Respondo acenando — O que você está fazendo?

— Eu acho que o meu namorado está me traindo, quero pegar ele no flagra — Ela explica.

— Não é mais fácil só terminar com ele, se você não confia nele? — Pergunto e ela me olha arqueando a sobrancelha — O que? Você sentou aqui, eu só estou sendo curiosa.

— Eu não vou terminar com ele se ele for inocente — Ela diz como se fosse óbvio.

— Mas desse jeito você vai viver insegura e isso pode afetar sua autoestima — Eu respondo de maneira suave.

— Não quero conselhos, fica de boa ai — Ela fala e eu dou de ombros.

— Quietinha — Respondo e volto a minha atenção para o meu picolé.

Ela pega o celular e troca algumas mensagens, então se levanta e eu acompanho ela com o olhar. Ela parece muito, muito irritada enquanto caminha em direção a um casal, que deve ser o namorado e a amante. Talvez seja errado rir desse tipo de situação, e é mais engraçado que as pessoas são todas iguais, independente de onde estão, já vi umas duas brigas assim pela escola, mas essa é muito mais animada, quero dizer, eu acho que não deveria estar vendo uma briga dessa forma, mas como eu não estou no meio... dou de ombros.

Meu celular toca no momento em que as duas começam a se atracar, sinto vontade de ignorar a chamada para continuar vendo a briga, mas acho melhor atender.

— Alô? — Falo ao atender a chamada.

— Oi, filha, quanto tempo — Escuto a voz do meu pai e ao mesmo tempo um calafrio sobe pela minha coluna. — Achou mesmo que eu não te encontraria? Achou mesmo que poderia se esconder?

— Eu não estou me escondendo...

— Morando no morro? Realmente não está se escondendo? — Ele me interrompe ao perguntar com deboche — É isso que você quer para sua vida? Viver na favela, rodeada de pobres?

— É melhor que viver em uma casa onde tentam me matar, me espancam e que tentam me forçar a casar — Rebato com raiva — Aqui eu não to sendo o saco de pancada de ninguém, não tem ninguém me obrigando a fazer ou ser o que eu não quero ser.

— Eu bloqueei todos os seus cartões, você não vai aguentar a vida sem dinheiro, é melhor você voltar para casa — Ele fala sério — ou eu vou te buscar, você não vai ficar aí misturada com essa gentinha.

— Eu sou maior de idade, não pode me obrigar a nada – Falo firme não posso deixar que ele me manipule.

— Eu estou te dando uma chance, não desperdice como a Carol fez — Ele avisa e eu respiro fundo.

— Chega, pai, eu não vou discutir sobre isso, eu não vou voltar para casa nunca mais, eu não quero e não vou, não adianta me ligar, não adianta me ameaçar, não adianta nada — Falo e respiro fundo para controlar a minha voz — Eu só quero que esqueçam a minha existência e me deixem em paz.

— Eu não vou deixar a minha filha me fazendo uma vergonha como essa, eu não aceito! — Ele grita.

— Que que você está falando? Você queria me forçar a ficar com um traficante, qual moral você tem? — Pergunto indignada — Ou esqueceu do jantar de noivado?

— Se você fosse uma boa filha, uma que quer o bem dos seus pais, estaria aqui e saberia a verdade — Ele rebate e eu reviro os olhos, não é possível que eu esteja escutando isso.

— Olha, eu poderia rebater isso, falar o quanto você e ela são péssimos pais e o quanto eu me sinto magoada e tenho medo e horror de estar por perto, poderia falar como vocês já quase me mataram e não se importam com o meu sofrimento, mas não adiantaria, porque não se importam — Falo extremamente cansada — Então, tudo o que eu tenho para dizer é que eu vou desligar esse telefone e espero que eu nunca mais tenha que falar com você novamente, adeus pai.

Eu desligo a chamada antes de ouvir se ele teria mais alguma coisa para dizer e já bloqueio o contato, não quero papo, não quero nada, quero paz.

Respiro fundo, contando mentalmente até dez algumas vezes, com os olhos fechados, realmente espero que em breve isso seja página virada e que eu não tenha mais dores de cabeça por causa deles.

Tento pensar em outra coisa, e olho ao redor e vejo que até a briga já acabou, talvez seja melhor eu voltar para a casa do Elfo, e fazer algo de útil, e pensar em soluções para todos os meus dilemas.

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@thainarro

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora