Capítulo 36

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Vanessa Aguiar

Fico sentada na laje da casa do Elfo, gosto daqui porque consigo ter uma visão bem ampla do morro, é legal ver as pessoas passando de um lado para o outro, vivendo suas vidas, gosto de imaginar quais seus nomes, suas histórias, me ajuda a passar o tempo. E o tempo tem estado muito entendiante.

— Você não vai sair daqui mais? — Assusto ao escutar a voz da Manuela, não estava esperando ninguém aparecer por aqui. E ela ri alto — Desculpa, não era a intenção te assustar.

— Tudo bem e eu gosto de ficar aqui — Falo dando de ombros, depois de me acalmar.

— Mas você já está aqui a três dias e não colocou o pé para fora da casa, não vai conhecer o morro? As pessoas? — Ela pergunta sentando ao meu lado.

— Eu não pensei muito sobre isso — Admito um pouco sem graça.

— mas deveria pensar — Ela rebate e eu desvio o olhar, voltando a olhar para o morro — É sério, Vanessa.

— Eu tô bem aqui — Respondo simples.

— Não, você não está bem e eu entendo, mas caralho garota, reage! — Ela fala seria e eu olho para ela um pouco assustada — Entendo que é uma merda o que você tá passando, mas vai ficar aqui sem fazer nada?

— E o que você quer que eu faça? — Pergunto um pouco impaciente, não estou gostando nada dela me dando uma bronca dessa forma.

— Quero que você saia daqui de dentro, quero que você conheça as pessoas — Ela respira fundo — Vai ficar dentro de casa até sua irmã aparecer?

— Era o plano — Confesso.

Ela me olha um tanto indignada, mas eu ignoro, eu sei que estou errada, mas eu não sei o que fazer, não aqui. Eu tinha toda a minha vida programada e agora eu não tenho nada, literalmente nada. Só quero esquecer o mundo e todos os problemas que me cercam. Já bloqueei três contas da minha mãe no Instagram, e felizmente ela não tem meu número novo, e ainda tem a droga de um maniaco traficante que pode ou não estar me procurando.

— Vanessa, não se magoa com o que eu vou falar, mas escuta bem — Ela diz em um tom sério — Você tava na sua casa vivendo a droga de "cárcere privado" como você mesma disse, e agora só fica dentro de casa? Qual o sentido disso, porra! O seu problema é estar no morro? Eu sei que é muito diferente de tudo o que você já teve e já viveu, mas quanto mais rápido você se adaptar, melhor será para você mesma.

— Manu...

— Ainda não terminei de falar — Ela me interrompe — Você vai poder andar tranquila pelo morro, pode conhecer os projetos sociais daqui, pode fazer amigos, e se quer saber, as pessoas aqui são muito mais legais do que por lá — Ela faz uma pausa para respirar fundo e eu espero um pouco — Vamos sair, comprar uma roupa, comer na rua, você tem que aprender a se divertir e viver aqui enquanto está aqui.

Prendo os lábios formando uma linha fina, sem saber o que responder ou como responder, porque apesar da forma agressiva que ela falou, ela está certa. Eu quis tanto ser livre e agora eu mesma estou me predendo. Ela se levanta e me olha muito séria.

— E se arruma, que a noite a gente vai sair — Ela avisa enquanto começa a se afastar.

— Eu tenho escolha? — Pergunto em um tom quase divertido, tentando quebrar o clima pesado.

— Você sempre tem escolha, mas eu espero que escolha ir — Ela diz e me deixa sozinha.

Eu respiro fundo, abalada com tudo o que a Manuela disse, agora nem parece mais ter a mesma graça ficar nesse lugar observando tudo, percebo que o que eu estou fazendo é assistir, a mesma coisa que se eu estivesse na sala assistindo uma série qualquer. E tá tudo errado.

— Ela fala muito mesmo, sem pensar se vai doer ou não — Escuto a voz do Elfo e suspiro, ele tem sido muito mais paciente comigo do que eu imaginei que ele poderia ser.

— Eu percebi isso — Falo com um sorriso pequeno, olhando para ele — Você estava aí a muito tempo?

— Só o suficiente para ouvir ela te falando algumas verdades — Ele diz  divertido sentando no lugar que ela estava antes.

— Reconfortante — Falo brincando e ele da de ombros.

— E eu concordo com ela, deveria sair com a gente hoje — Ele diz e segura a minha mão — Eu fico com você durante a festa inteira.

— Eu ainda estou com vários roxos — Eu digo sem graça e ele começa a brigar com a minha mão.

— Você sabe que não precisa esconder, mas também pode usar algo que esconda, você vai gostar de ir e eu falo com o Gota para sua amiga ir também — Ele fala calmo — Você precisa de um pouco de álcool e agitação.

— Tudo bem, eu vou — Concordo e ele sorri.

— Vou trocar seu apelido — Ele fala e eu olho para ele confusa.

— Como assim? — Pergunto confusa.

— Sim, trocar de Patricinha para mimadinha — Ele diz rindo e eu reviro os olhos.

— Como se eu fosse mimada — Falo dando de ombros e ele ri alto.

— Você é a personificação da mimadez — Ele brinca e eu rio revirando os olhos.

— Eu estou sendo caluniada! — Eu reclamo.

— Você sabe que não — Ele diz e eu dou de ombros.

A gente fica em silêncio um pouco, e eu tenho um sorriso pequeno no meu rosto, acho que estou me sentindo até mais calma, acho que ele me faz bem, a companhia dele me acalma.

Eu sinto os braços dele me envolvendo e ele puxando para um abraço e eu deixo, quero poder ficar perto dele.

Fico abraçada com ele, a gente não avançou mais como no dia da praia, mas eu gosto de como as coisas estão indo, mesmo que pareça devagar por enquanto, até porque não estou me sentindo nada confortável com meu corpo como ele está.

Respiro fundo e sorrio ao sentir ele beijando o meu cabelo, acho que sou a maior hipócrita do mundo.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora