Capítulo 76

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Vanessa Aguiar

Tem dias que tudo parece fora do lugar, como se o universo estivesse tentando mandar avisos do caos que está por vir. Eu não sei se hoje é um desses dias, mas tudo o que tinha para dar de errado hoje, deu.

A blusa que eu vesti pela manhã foi encharcada pelo copo de suco que a Manuela deixou cair em mim, minutos depois que derrubei um prato de vidro no chão, partindo ele inteiro, para depois disso tudo, o Murilo ainda cortar a mão com uma faca de pão. Felizmente não foi grave.

E agora, enquanto olhos para os alunos atentos à atividade que passei, sinto meu peito doendo. Não é como se algo estivesse esmagando meu coração, tentando fazer com que ele exploda, é um leve aperto, uma sensação de quase sufocamento. Eu não sei explicar.

Talvez eu esteja passando mal, talvez seja um aviso. Eu não sei.

Respiro fundo balançando minha cabeça, melhor eu deixar de pensar nessas bobeiras, eu tenho que parar de ver tantos filmes, achar que tenho uma intuição de oráculo. Isso é loucura, nada de pior pode acontecer na minha além das coisas horríveis que já estão acontecendo.

Continuo a aula falando sobre pronúncia de algumas palavras em específico e logo o alarme do meu celular avisa que já é o fim da aula. Deixo uma atividade para casa e junto meu material, já são cinco da tarde e eu só quero chegar em casa, talvez quando eu estiver segura em casa, toda essa sensação maluca acabe.

Me despeço dos alunos e da Marina e saio com minha mochila nas costas, e a sensação de que tem uma bomba prestes a explodir não me deixa nem por um minuto. Respiro fundo, acho que antes de ir para casa eu vou comprar algo doce para levar.

Vontade de comer algo que eu sei que não vai ter lá.

Andor pelas ruas levemente distraída, mesmo sabendo que isso é um problema, e entro na padaria e escolho algumas coisas, deveria comer essas bombas calóricas? Definitivamente não, mas quem se importa, né?

Saio pronta para voltar para casa, mas vejo uma movimentação estranha, mas ninguém parece se importar, ou não querem se envolver, e eu acho que deveria fazer o mesmo por isso caminho mais alguns passos para frente, mas sabe aqueles momentos em que a gente sente que deveria ignorar e seguir reto? É exatamente um momento como esse agora.

Mas estou fazendo o total oposto indo em direção ao beco que acabaram de arrastar uma pessoa. 'Pelamor, o que eu vou fazer? Gritar junto dá outra pessoa? Eu deveria parar aqui e agora.

— Opa, você não pode ir mais adiante — Um carinha fala quando estou prestes a entrar no beco — Sei quem você é, mas ainda assim não posso deixar.

— O que está acontecendo? — Pergunto tentando ver, mas odiando já estar começando a baixar o sol.

— Não posso tá falando não — Ele diz, cruzando os braços.

— Mas... — Eu começo a falar e paro. Eu não tenho que insistir nisso, o que tá acontecendo comigo? — Certo, eu estou indo.

Me viro para ir embora, mas escuto uns pequenos gritos e tenho a enorme sensação de que conheço a voz. Talvez eu esteja louca? Sim, mas preciso muito ver quem é.

— Eu preciso mesmo ver quem vocês levaram para aí — Eu falo decidida.

— Não vai entrar — Ele cruza os braços com a expressão fechada, tenho certeza que se ele pudesse ser mais grosso que isso, seria.

— Eu vou ter que tomar medidas drásticas — Aviso e ele me olha arqueando a sobrancelha — Vou ligar para o Elfo.

Me afasto um pouco tirando o celular do bolso e disco o número do Murilo e fico batendo o pé nervosa. É uma loucura, eu poderia tá em casa de boa, mas tô aqui querendo me meter onde não fui chamada.

— Oi, meu amor — Ele diz carinho ao me atender e eu sorrio pequeno — Eu ia mesmo te ligar, mas pode falar primeiro.

— Oi, meu bem, eu... hum... eu não sei como te explicar o que eu preciso, pode falar primeiro já que ia me ligar — Eu falo e escuto sua risada baixa.

— Você tem alguma prima chamada Beatriz? — Ele pergunta e eu fico muito confusa.

— Ok, isso foi além do aleatório, sim, eu tenho uma prima com esse nome, mas nós não nos falamos, por quê? — Pergunto confusa.

— Existe algum motivo para ela te procurar? — Ele questiona e eu fico em silêncio pensativa.

— Não, a gente realmente não se fala — Respondo achando tudo ainda mais estranho — sério, por quê?

— Apenas para informação — Ele diz em tom de indiferença, mas não convence, porque assim do nada? — o que você queria?

— Certo, mas ainda quero entender sobre a Beatriz — Eu aviso, mas quero muito resolver isso agora — Eu vi seu pessoal arrastando uma pessoa para um beco, e eu tenho a sensação de que eu conheço a pessoa, mas não deixam eu ver quem é.

— Que bom que estão fazendo o trabalho deles.

— Amooooor — Eu falo um pouco manhosa e escuto ele suspirando.

— É a sua prima, Beatriz — Ele diz e eu fico chocada, como assim? — Eles me ligaram para confirmar a informação e saber como proceder, mas de acordo com as suas respostas, eu só iria mandar ela embora.

— Quê? Não, meu Deus! — Falo ainda confusa e chocada.

— Quer falar com ela? — Ele pergunta parecendo confuso e eu respiro fundo para pôr o pensamento no lugar.

Não que seja um trabalho fácil, que caralhos a Beatriz está fazendo aqui atrás de mim? Que tipo de mundo paralelo é esse?

— Quero! Você deveria ter perguntado isso logo de cara — falo meio impaciente e meio chateada.

— Eu só estava te preservando, mas enfim, vou ligar para avisar — Ele responde e eu suspiro — até mais tarde.

— Obrigada e até mais tarde — Respondo e ele desliga a chamada.

Eu volto para o lugar que estava antes e cruzo os braços impaciente e o carinha me olha e respira fundo, também não fala nada, mas não me deixa passar ainda. Fico esperando, tenho certeza que logo a Beatriz é liberada ou eles planejam levar ela até mim, por isso já espero aqui mesmo.

Logo ela entra no meu campo de visão, Beatriz tem o cabelo preso em coque e os olhos arregalados pela expressão, medo e choque em seu rosto. Eu deveria passar algum tipo de lista para o Elfo? Mas convenhamos, o que caralhos a Beatriz quer comigo? Nós odiamos, isso não faz o menor sentido.

Sua expressão muda para alívio quando me vê, ela até faz menção de que vai correr, mas trava. Eu também travaria com tanta gente tão armada me olhando feio.

— Vanessa, ela é sua prima mesmo ou tá mentindo? — O Felipe, um rapaz que me acompanha às vezes pelo morro a mando do Elfo, questiona.

— É, sim, não machucaram ela não, né? — Pergunto arqueando a sobrancelha.

— Não, mas foi quase — Ele responde dando de ombros — Tem que avisar quando tem visita, pô!

— Foi surpresa, eu não estava esperando — Falo com um sorriso pequeno, educado.

— A gente pode ir para outro lugar? — Ela pergunta baixo quando se aproxima de mim — Por favor.

— Podemos — Respondo em um tom seco — Até depois.

— Quer que te acompanhe? — Felipe pergunta com uma expressão séria.

— Não precisa, obrigada — Respondo e olho para a Beatriz — Vamos?

— Vamos — Ela responde de imediato.

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Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora