Capítulo 56

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Vanessa Aguiar

O silêncio dentro do carro é quase que perturbador.

Pelo tanto que já conheço a Manuela sei que ela está a ponto de explodir e que está muito irritada, tenho certeza que a expressão amarrada é para que ela não exploda e acabe falando o que não deveria.

A Laura está quieta porque provavelmente está assustada. Uma coisa é falar sobre com quem está saindo, outra bem diferente é fazer os dois se encontrarem e os apresentar.

E eu, bom, melhor que eu fique quieta porque essa situação já toda e completamente culpa minha, eu só quero que esse dia acabe logo, mas sei que ainda temos muita coisa para fazer. No fundo, eu sei que um boletim contra o meu pai não vai dar em nada, estamos no Brasil, não é como se a lei aqui funcionasse como deveria, mas já vai ser bom começar a devolver de alguma forma as coisas que ele me fez.

E talvez seja precipitado pensar sobre isso, mas eu já tenho uma ideia bem clara do que quero fazer com o vídeo dele, mas vou pensar com calma. Rio baixo, é estranho pensar que quanto mais eu penso e cálculo sobre o que eu vou fazer, mais pareço uma pessoa pior. Eu deveria me importar com isso?

Eu acho que existe um requinte maior de crueldade quando se trata de matar alguém com um laço sanguíneo tão próximo, mas não é como se ele não merecesse. Ele já quase me matou de tanto me bater tantas vezes.

Me sinto confusa, depois eu vou conversar com o Elfo sobre isso, sei que ele vai estar comigo independente da decisão que eu tome e eu acho isso particularmente reconfortante.

— Eles chegaram! — A Manuela exclama e eu olho para trás, vendo o Elfo estacionar logo atrás do carro.

— Finalmente, já estava cansada de esperar — A Lúcia diz saindo do carro.

Saímos todas do carro e eu vejo eles saindo também, a expressão deles não é das melhores enquanto vem em nossa direção, mas dada a situação, não dava para esperar que eles estivessem cheios de sorrisos e a alegria.

— O que aconteceu com o seu rosto? — O Elfo pergunta parando na minha frente.

— O Roberto — Respondo simples, porque sei que basta isso para que ele entenda.

— Era mesmo uma armadilha? — O Gota pergunta e eu respiro fundo assentindo.

— E vocês sabiam que podia ser isso e ainda deixou que as três fossem até lá sem qualquer proteção? A mercê de um bando de policiais corruptos? — A Lúcia questiona impaciente e os dois trocam um olhar antes de encarar a mãe da Laura. Seria engraçado ela dando uma bronca neles, se eu não estivesse assustada.

— O que a senhora quer? — O Elfo pergunta sério, com uma expressão fechada.

— Eu quero que vocês levem as duas para a minha casa e esperem lá — Ela responde calma demais, enquanto indica a Laura e a Manuela, que se olham sem reação.

— O que? — a Laura pergunta confusa e eu fico um pouco surpresa.

— Exatamente isso que vocês ouviram — Ela fala impaciente — E vão logo, não vou ficar aqui no meio da rua conversando com dois... eu não preciso dizer, mas eu e a Vanessa temos que fazer um boletim de ocorrência e eu tenho muita coisa para conversar com vocês, vão logo.

— Olha doutora...

— Eu não estou pedindo, Murilo, estou mandando, não me importo com quem você seja no morro e o escambau todo, mas se você e ele querem se envolver com as minhas meninas, é melhor que quando eu chegar em casa estejam os quatro lá — a Lúcia fala autoritária — Estamos todos entendidos?

— Estamos sim, mãe, pode ir tranquila — a Laura diz, tomando a frente.

— A senhora não pode achar que vai falar assim comigo e vai ficar tudo bem — O Elfo fala e eu vejo seu rosto vermelho de raiva — Quem a senhora tá pensando que é? Por que eu não me importo que seja juíza.

— Se eu estivesse falando como juíza seria para dar uma ordem de prisão para você e seu amigo, se eu estou colocando-os dentro da minha casa é porque estou agindo como mãe, então escolhe bem o que quer fazer, porque se for para gritar e fazer escândalo, é melhor que pegue sua irmã e vá embora, porque das minhas meninas eu vou cuidar — a Lúcia fala muito séria e eu sinto um calorzinho no coração por ela estar cuidando de mim como filha também. Coisa que a minha mãe nunca fez, me proteger e cuidar de mim.

— Tudo bem, nós vamos até lá — O Gota fala intervindo e a Laura suspira aliviada — Quando a senhora chegar lá, já vamo tá lá. Não precisa se exaltar, vamos resolver isso de maneira tranquila.

— Ótimo, então podem ir e tenham juízo — a Lúcia diz e me olha — Você volta para o carro porque temos uns problemas em aberto ainda.

— Certo — Respondo concordando com um aceno e caminho para fazer o que ela mandou.

A Manuela e a Laura acompanham o Gota e o Elfo, é possível perceber claramente como ele estava com raiva, tenho certeza que ele odiou alguém mandando nele dessa forma, mas foi quase que engraçado, mas só agora que estou pensando nisso dentro do carro. É tão bom perceber que eu realmente não estou sozinha. Enquanto eu mofava jogada pelos cantos dentro da minha própria casa ou quando cheguei na casa do Elfo, achei que estava sozinha e perdida, mas agora eu posso ver que eu estava errada o tempo todo. Tem muitas pessoas comigo.

Meu erro foi me fechar, mas é difícil enxergar certas coisas, principalmente quando se vem de uma família como a minha, completamente desestruturada, muita gente já disse que queria estar no meu lugar por causa do dinheiro que sempre tive, mas não imaginam o quão difícil é uma família como a que tive, mas para a minha sorte, encontrei pelo caminho pessoas que não tinham o mesmo sangue que eu, mas que me amam como se eu tivesse. Família nem sempre é sobre laço sanguíneo, mas sempre é sobre amor e respeito.

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