Capítulo 08

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Vanessa Aguiar

Meu corpo ainda está dolorido mesmo que já faça uns três dias que eu apanhei, sinceramente, já estou quase perdendo a noção da realidade trancada no quarto desde aquele dia, com o meu pai achando que estou fazendo jejum intermitente enquanto me deixa sem comer por horas e horas. Eu vou acabar ficando doente aqui, tomara que eu morra logo, estou cansada disso, estou muito cansada disso.

Respiro fundo me levanto para tomar um banho e passar uma pomada nas marcas, preciso pensar em alguma coisa para sair de casa, mas o que? Eu ainda estou fazendo cursinho para entrar na faculdade, como eu vou pagar as minhas contas se eu não tenho experiência para conseguir um emprego bem remunerado. Acho que aquele senhor do uber tem razão, melhor eu começar a procurar por algo na internet que eu possa fazer.

— Vanessa, aqui está seu celular — Escuto a minha mãe falando e me viro para ela  — Está passando remédio?

— Estou — Respondo um pouco seca indo até ela pegar o aparelho, e vejo seus olhos percorrendo todo o meu corpo para ver todos os roxos, e como estou só de top e shortinho de pijama, estã tudo exposto — Eu posso sair do quarto quando eu quiser? Ou ainda não?

— Pode, e seu pai foi para uma operação, não apronta nada, não sai de casa — Ela avisa séria.

— Eu vou poder voltar a ir pelo menos para o meu curso? — Questiono, porque já perdi vários dias de aula.

— Sim, mas ciente que é de casa para o curso, do curso para casa — Ela diz sério e eu aceno — Eu estou indo para o trabalho, não é para sair de casa, entendeu?

— Entendi, isso já ficou muito claro — Respondo enquanto ligo o celular.

— As coisas seriam mais fáceis se você cooperasse — Ela fala suspirando e eu olho para ela.

— Eu não vou falar nada porque não quero discutir — Digo cansada enquanto me sento na cama — A senhora e o meu pai não me entendem e não fazem questão, estive pensando no que ele falou e ele tem razão, enquanto eu estiver aqui, vou ter que seguir as regras, mas mãe, quando eu for embora vou ser diferente da Carol.

— Como assim diferente da Carol? — Ela pergunta confusa.

— Carol ainda manda notícias, liga, mas eu não, no dia que eu for embora, a senhora e o meu pai nunca mais vão me ver, nunca mais terão notícias minhas — Falo e ela me olha com os olhos semicerrados.

— Acabou de sair do castigo e já quer entrar em outro? — Ela questiona e eu respiro fundo — Você está sendo muito ingrata, isso sim, nós te damos tudo, tudo, são uma hora da tarde e você está dentro de casa com o ar condicionado ligado, quantas pessoas podem isso aqui no Rio? A ingratidão é horrível. Você tem um celular que custa mais de doze mil reais, acha que dinheiro cai de árvore? Você pode até tentar sair de casa, mas vai voltar se arrastando ao ver que o mundo é muito mais difícil do que você pensa.

— Eu acho que já sei o quanto o mundo é horrível e difícil — Respondo em um tom baixo — Eu realmente não estou tentando brigar ou discutir com a senhora, nem mesmo te desafiar, só estou contando como me sinto.

— Guarde para você mesma essa ingratidão — Ela responde com raiva — Eu estou indo e não saia de casa.

Antes que eu possa falar mais alguma coisa ela sai do meu quarto batendo a porta, tenho certeza que ela não escuta uma palavra das coisas que eu digo, tenho certeza que ela não se importa nem um pouco com os meus sentimento, nada. Mas não vou ficar me lamentando, tem dezenove anos que eu sei que eles são assim, autoritários e maus, eles escolheram ter filhos, mas odeiam ser pais.

Pego o meu celular e está recheado de mensagem e mais mensagem da Laura, acho que ela já estava quase vindo aqui, mas com certeza deve ter sido impedida, há outras mensagens também de alguns colegas e até uns contatinhos, mas não olho nenhuma, porque um número desconhecido chama a minha atenção.

(Número desconhecido)
Como você está?
Aqui é o Elfo, salva meu contato
Quando precisar de algo, só chamar
Não gosto de dever favor (3 dias atrás)

(número desconhecido)
Não recebeu as mensagens ainda
A mina do Gota disse que esse era o número
Se estiver passando por alguma situação
Me procura (hoje)

Eu quase rio olhando as mensagens, eu estaria muito ferrada se o meu pai tivesse resolvido mexer no meu celular, como ele sai mandando mensagem dessa forma? Não tem nenhum senso de autopreservação? Tudo bem que ele não sabe que não sabe que sou filha de policial, mas justamente por não conhecer a outra pessoa é que ele deveria ter mais cuidado, é por isso que é procurado, não tem juízo.

Reviro os olhos mais uma vez, mas não respondo, primeiro vou falar com a Laura e depois vejo isso, mesmo porque eu disse que não queria nada, não iria cobrar nenhum favor, só quero distância disso tudo.

Seleciono o contato da Laura e coloco para chamar, mas ela atende muito rápido.

— Vanessa? Meu Deus, eu já estava começando a achar que você tinha morrido — Ela fala desesperada.

— Eu estou bem, quero dizer, não estou, mas pelo menos estou viva — Respondo em um tom leve, tentando amenizar as coisas — Como você está?

— Como eu estou não é importante, você sabe que a minha mãe só fala e fala, não bate em mim — Ela diz, mas eu realmente já sabia, o que me deixa um pouco aliviada — Mas o seu pai não é assim.

— Ele fez o de sempre, me bateu até que eu não conseguisse ficar mais em pé, depois me trancou no quarto sem celular e com pouco acesso a comida — Digo como se fosse insignificante, mas só eu sei o quanto isso dói e me fere — Mas agora eu já posso sair e me alimentar, e amanhã eu vou no curso.

— Estou ansiosa para te ver amanhã — Ela diz e eu sorrio, mas me lembro de um detalhe.

— Você passou meu número para ele! — Acuso e escuto ela rindo e falando "ops" — Eu não acredito nisso.

— Amiga, o Go... meu boy ficou perguntando, dizendo que o amigo dele queria muito porque tinha algo para resolver com você, então eu acabei passando — Ela se justifica — E você ainda tem que me contar o que rolou.

— Amanhã eu vou fazer isso, hoje não — Respondo suspirando — Mas não era para ter passado.

— Tarde demais, só dispensa e pronto — Ela diz indiferente e ri — Mas vai dizer que não achou ele lindo.

— Eu achei, mas também achei a cara do problema, não quero — Respondo — Amiga, eu já tenho confusão demais na minha vida, não quero contato, estou falando sério.

— Tudo bem, não está mais aqui quem falou — Ela diz e eu respiro fundo, realmente espero que esse seja um assunto encerrado, não quero me estender demais com isso.

— Eu vou desligar, porque tenho que banhar e comer ainda, nos falamos depois — me despeço, porque eu realmente preciso muito ir comer alguma coisa — Tchau amiga, até depois.

— Tchau, se cuida — Ela responde e desliga a chamada.

Largo o celular em cima da cama e vou tomar um banho agora, já que fui interrompida quando me levantei para fazer isso. Mas quando eu me levanto, vejo um número desconhecido me ligando, e vejo que é o do Elfo. Decido não atender, nunca nessa vida que eu me envolver com bandido.

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Oie, espero que tenham gostado do capítulo ❤️

Meta para capítulo na quarta-feira
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Beijinhos e até o próximo capítulo ❤️

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora