Capítulo 74

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Vanessa Aguiar

Os dias estão passando lentos, como se eu estivesse vivendo na tranquilidade ao lado do caos, e eu não sei explicar o que sinto, nem mesmo sei falar sobre essa droga de vontade de gritar que está presa na minha garganta.

Fecho os olhos respirando fundo, eles não merecem mais nada de mim, nem mesmo as minhas lágrimas, por isso não vou chorar.

Pelo menos a Eliza não tem me procurado, e a notícia que tive sobre o Roberto era de que ele estava se tratando no hospital, mas já tinha ido para casa. Eu sinceramente não me importaria se alfo mais grave acontecesse com ele, seria um livramento, essa é a verdade.

Foram duas longas semanas desde aquele dia horrível, mas até acho que tenho conseguido lidar bem com a angústia dentro no peito. Eu só queria conseguir uma notícia que fosse da minha irmã, nada além disso.

Será que a Carol está bem? Será que está se alimentando corretamente? Será que ela está viva? Será que a pessoa que provavelmente a feriu foi a Eliza?

Pensando agora, talvez eu sempre tenha sido inocente demais por acreditar que talvez a Eliza fosse uma perua milionária, talvez a minha mãe... mãe, ela não sabe o significado disso. Eliza é uma controladora que surta se tudo não está do jeito que ela quer. E pode muito bem ser uma psicopata sádica e por isso se dá tão bem com o Roberto.

Felizmente essa primeira semana de aula foi ótima, os alunos são legais e eles estão achando divertido ter uma professora um pouquinho só mais velha que eles. E a parte difícil disso é fazer com que eles entendam que devem me respeitar, mas até acho que estou me virando bem e vou controlar a situação.

Eu tenho pensado muito e não cheguei a muitas conclusões, mas acabei percebendo uma coisa: O Drogo sumiu.

Eu achei que ele faria alguma coisa para me atingir, afinal, eu atirei nele, e depois daquele encontro na casa em que eu vivia, estava quase que completamente certa de que ele tentaria fazer algo contra mim, mas não houve nada.

Talvez eu só estivesse surtando à toa.

Olho ao redor, observando o Morro. Tenho certeza que a minha versão mais nova jamais se imaginou assim, sentada em uma laje na favela, olhando tudo tão familiarizada.

É tudo tão novo, é tão igual.

— O que você está fazendo aqui? — Escuto a voz da Manuela e me viro um pouco para olhá-la — está tudo bem?

— Está, sim, eu só estou um pouco entediada, mesmo que eu não faça muitas coisas ao longo da semana, ainda acho que os domingos são chatos, longos e entediantes — Respondo dando de ombros.

— podemos ir pro baile hoje, faz um tempo que não vamos e eu acho que vai ser muito divertido — Ela diz enquanto se senta ao meu lado.

— Você sempre acha que ir para o baile é uma boa ideia, é que vai ser divertido — Respondo sorrindo e ela balança os ombros.

— Porque é mesmo, acho que se algum dia os bailes acabarem, eu não vou mais existir — Ela diz com um toque de drama e exagero — Os bailes são tudo de bom.

— Vou falar com o Elfo sobre a gente ir, acho que eu preciso me distrair um pouco mesmo — Concordo e ela sorri animada.

— Eu tive muita sorte com cunhada mesmo, ainda bem que é você e que você é assim — Ela fala sorrindo e eu rio.

— Tão fofa, nem parece que você tentou me despachar no começo — Eu brinco relembrando do dia que ela estava muito brava comigo.

— É que agora eu não acho que você vai magoar o Elfo. — Ela me olha com um sorriso pequeno nos lábios — Eu gosto muito de você, Vanessa, você é uma amiga maravilhosa e eu vejo o quanto o Murilo tá feliz com você, mas não importa a situação, ele é e sempre será a minha prioridade e será minha escolha antes.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora