Capítulo 27

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Vanessa Aguiar

Continuo sentada em frente a penteadeira mesmo depois da minha maquiagem feita, consegui esconder todas as marcas na minha pele, consegui ficar bem visualmente, mas se existisse alguém que pudesse me ver por baixo de tudo, veria que estou completamente quebrada. Meus pais me destruíram e pretendem continuar com isso até que não sobre mais nada, mas eu não vou mais ficar parada. Desisto de esperá-los desistirem.

Vou até esse jantar e vou fazer tudo o que eles acham que eu deveria fazer, vou sorrir, ser gentil e educada, mas vai ser tudo um grande teatro, porque depois, na minha primeira chance, eu saio daqui. Tenho certeza que escolheram algum político ou empresário, mas não quero saber quem é, vou só sorrir e acenar.

Eliza pode me odiar, não me importo mais com ela ou com o Roberto, mas eu não vou mais ficar parada. Eu gosto de viver, sempre gostei. Eu acho a vida colorida e até mágica, por mais que essa situação me coloque para baixo de uma maneira devastadora, não vou continuar me submetendo dessa forma. Eu não sou mais uma criança que eles podem controlar. Sou uma mulher e lutarei por mim.

Eu sempre quis que a minha mãe me notasse, sempre fui excelente aluna, sempre quis ter o amor dela, pelo menos quando era criança, porque quanto mais eu crescia, mais via que não era bem assim, sei que a Carol passou pela mesma decepção que eu, mas pelo menos ela foi mais inteligente e foi embora quando fez dezoito anos, eu fiquei aqui. Se eu pudesse voltar no tempo, teria saído de casa na noite do meu aniversário.

Felizmente, eu ainda estou viva e posso conseguir ir para outro lugar. Roberto acha que estamos em que ano? O Século passado? Não sei o que eles pretendem, ou qual o plano para que eu diga sim no altar ou qualquer coisa assim, não vai acontecer, simplesmente não vai. E eu estou completamente determinada sobre isso.

A porta é aberta e eu vejo minha mãe... não, eu vejo a Eliza sorrir para mim, mas eu não retribuo o gesto.

— Você está linda, nosso convidado já chegou, então espero que você se comporte — Ela me avisa e eu sinto uma imensa vontade de revirar os olhos — O trate com respeito, ele será o seu marido.

— Você se escuta? — Pergunto com desgosto e respiro fundo — Eu não vou discutir, já está na hora de descer?

— Eu acho ótimo que você esteja determinada a não discutir, já está cansativo — Ela fala em um tom cansado, mas eu só solto o ar devagar, como ela consegue ser tão cínica? Será que ela acredita nas coisas que diz? Não é possível que esse seja o grau de alienamento dela, ou maldade — E sobre o nosso convidado, não quero discussões, não quero nada, o trate com tanto respeito quanto tempo por seu pai.

Ela diz com muita seriedade e eu sinto uma vontade absurda de rir. Respeito pelo Roberto? Mas eu não o respeito, eu tenho medo. São coisas completamente diferentes, mas eu não vou dizer isso em voz alta, não quero mesmo começar uma discussão desnecessária e que não vai ter fim.

— Já está na hora de descer? — Repito a minha pergunta ignorando as outras coisas ditas.

— Claro, meu bem, vim aqui justamente para te buscar — Ela responde com cinismo e sorrindo.

— Queria entender o que passa na sua cabeça, de verdade — Falo enquanto caminho saindo do quarto.

— Qual sua dúvida? — Ela questiona com tranquilidade — Vai que eu possa te responder.

— Nada de mais, só coisas como. Será que a Eliza acha mesmo que está tomando boas atitudes? Será que dentro da cabecinha perturbada dele, ela acha mesmo que isso é amor? São tantas as dúvidas, você realmente pensa que vai conseguir me colocar como um fantoche em qualquer situação? — Faço essas perguntas porque eu sei que está perto demais da escada para que ela faça um escândalo.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora