Capítulo 53

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Vanessa Aguiar

Fico batendo o pé nervosa, não deveriam ter chamado a Manuela, ela nem foi intimada. E mais, por que não esperaram o advogado chegar? Por que já começaram a chamar assim? Sinto que estou ficando mais tensa do que deveria, acho que vou enlouquecer, isso sim. Essa situação já passou do limite.

Eu sei que não entendo muito dos procedimentos, mas tem uma voz gritando na minha mente que está tudo errado, me sinto completamente caótica, eu não deveria ter deixado ela vir, apesar de que a Laura não tinha muito o que fazer, já que ela foi intimada a estar aqui. Respiro fundo, cada minuto de espera parecem horas.

Eu queria muito não estar pensando nas piores coisas nesse momento, mas eu não consigo evitar.

O tempo vai passando e a Manuela demora a voltar, ela já deveria estar aqui novamente, já tem muito tempo que ela foi levada. A droga do advogado deveria estar aqui. O que está acontecendo que ninguém aparece?

— Sua vez — Escuto a voz do recepcionista e vejo que ele está falando com a Laura, mas eu olho ao redor e não vejo a Manuela, como assim vão levar uma sem trazer a outra? — Me acompanhe por favor.

— Não! — Eu exclamo ficando de pé entre eles e o policial me olha sério, só espero não ser presa por desacato a autoridade — Cadê a Manuela? Por que ela não voltou? Por que vai levar a Laura para depor se a Manuela ainda não está de volta? A gente quer esperar o advogado, não estamos com pressa mesmo.

— Ela está em uma sala de espera — Ele diz com uma falsa paciência — Vocês não podem se encontrar até que o depoimento de todas esteja colhido, é só um procedimento padrão, mas quanto mais enrolam, mais demora.

— Está tudo bem, vamos acabar logo com isso — A Laura diz e eu olho para ela muito receosa — eu falei com o advogado por mensagem, ele disse que eu posso ir enquanto ele não chega, não sou obrigada a responder tudo e nem você, a gente só vai esclarecer o mal entendido, vamos ficar bem, estou contando com isso.

Eu fico desconfiada e respiro fundo, não sei se essa é a melhor opção, mas isso é porque eu acho que tem dedo do meu pai no meio disso. Se fosse somente o procedimento, eu não estaria tão desconfiada de nada, eu só espero que dê tudo certo mesmo. Eu não sei o que eu seria capaz de fazer, tendo pais tão ruins quanto os que eu tenho, é praticamente impossível que eu seja uma santa, também posso ter um lado muito ruim.

— Certo, se você acha melhor, vou concordar com você — Respondo voltando para o meu lugar.

Vejo o policial da recepção guiando ela para dentro da delegacia e fico com a expressão ainda mais fechada. Vai ser mais uma longa espera, mais raiva e mais nervosismo. Eu estar aqui já deveria ser considerado como prova o suficiente para que ninguém fosse acusado de me sequestrar. Caralho, eu odeio tanto eles por estarem fazendo isso. Fico me perguntando o que eles realmente querem, o que eles estão realmente tentando, e não consigo chegar a nenhuma conclusão real. Eles não me amam e não se preocupam, era só me esquecer.

Eu deveria ter saído de casa antes, nunca deveria ter deixado as coisas irem tão longe como agora. Se eu tivesse ido embora assim que eu completei dezoito anos, se eu tivesse aproveitado melhor os contatos, eu estaria vivendo bem agora. Mas do que adianta eu ficar pensando em todos esse "se's" não tem como voltar no tempo, não tem como refazer nada, agora eu tenho que reagir com o que tenho, tenho que fazer algo da minha vida dentro da situação em que estou, e eu sei que ainda tenho muitas opções.

Fecho os olhos enquanto respiro fundo. Preciso achar um pouco de paciência para quando for a minha vez, eu não surtar lá dentro independente de qualquer que seja a surpresa que eu tenha. Mas será que se eu der de cara com o meu pai, isso vai ser uma surpresa? Será que isso é realmente uma investigação de sequestro?

São tantas as variáveis que é difícil chegar a um denominador, uma opção mais forte que a outra.

— Vanessa, sua vez de falar com o delegado e dar seu depoimento — O policial diz e eu me levanto.

— Finalmente, porque eu realmente quero ir embora daqui — Falo indo até ele. Finalmente é a minha vez.

— Me acompanhe, por favor — Ele pede em um educado e eu o sigo.

Meus olhos percorrem cada espaço em busca da Laura e da Manuela e eu não as vejo por lugar nenhum, onde será que fica essa sala de espera? Porque eu realmente espero que seja nesse lugar que elas estejam, espero também que a Laura tenha mandado mensagem para a mãe dela, e que ela esteja chegando aqui, porque isso vai manter a minha melhor amiga segura, e espero que seja o suficiente para manter a Manuela segura também.

Ele abre uma porta e eu fecho a expressão, essa não é uma sala normal de depoimento, eu posso até não entender muito, mas sei que essa sala é para interrogatórios. Eu vou ser interrogada? Cadê o escrivão com sua mesa? Cadê o delegado? Isso aqui está errado, eu sei que está.

— Pode entrar e esperar aqui — Ele diz indicando para que eu entre para dentro da sala.

— Eu vou ser interrogada? Achei que era um depoimento rápido — Eu falo me mover um dedo do lugar.

— O delegado te encaminhou para cá, aguarda só um momento que ele vai te explicar melhor — Ele explica e eu fico ainda mais receosa — Você só vai ser ouvida, e será bem melhor se cooperar, entre na sala.

Eu fico parada no lugar, completamente desconfiada. Se eu não entrar, vão fazer o quê? Me arrastar à força? O pior é que eu não duvido. Respiro fundo e olho ao redor, apesar de ouvir algumas vozes, não vejo ninguém.

— Tudo bem — Acabo concordando, mesmo que minha consciência me diga que essa é uma péssima decisão.

— O delegado já está vindo — Ele avisa enquanto eu passo para dentro da sala.

Eu aceno com a cabeça, concordando e vou para dentro da sala e me sento, tento não pensar em nada muito ruim, mas não consigo evitar, porque eu sei que alguma coisa péssima já está acontecendo.

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@ thainarro 

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora