Capítulo 81

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Vanessa Aguiar

Sinto como se todo o meu corpo estivesse dormente, apenas deixando a Beatriz me guiar até o carro. Até vejo alguns corpos pelo caminho e admito o quanto isso é perturbador, todo esse sangue e essa confusão. Ainda consigo escutar alguns tiros e eu sinto como se estivesse sendo sequestrada uma segunda vez.

Parece até uma piada, sequestrada de um cativeiro para ser levada para outro. Que tipo de piada sem graça é essa?

Nós entramos no banco de trás e os dois se sentam nos bancos da frente. Quero encher eles de perguntas, quero saber como nos acharam tão rápido. Quero tantas informações que não conseguiria sequer enumerá-las, mas a minha voz não sai.

Sinto como se tudo em mim tivesse sido desligado, minha capacidade reação está nula, minha voz se perdeu e eu sequer consigo prestar atenção no caminho.

— Vamos precisar que vocês se abaixem — o policial no banco de passageiros diz em um tom autoritário.

— Por que? — Eu pergunto encarando ele.

— Porque ainda estamos dentro do morro, não estamos com escolta, era para ser só uma vistoria já que era um dos endereços que o carro foi, mas logo percebemos do que se tratava o lugar — Ele explica sério e falando rápido.

O motorista se vira rapidamente, apenas nos olhando com uma expressão séria e eu quase prendo a minha respiração de tão nervosa que eu me sinto, mesmo que esse momento não tenha durado nem dois segundos.

— Espero que vocês não testem a minha paciência, se abaixem, porra! — Ele grita irritado, batendo a mão no volante.

Minha reação instantânea é me encolher completamente assustada, a Beatriz me olha com os olhos arregalados e eu entendo, também estou com medo.

Definitivamente, eu não queria estar nessa situação, quem gostaria? Só sendo muito fora da casinha. Conto até dez mentalmente e começo a fazer o que ele mandou, assim como a Beatriz.

É uma posição completamente desconfortável, simplesmente odiei isso e estar aqui. Eu queria tanto tá em casa, dormindo abraçadinha com o Elfo, sentindo o perfume do corpo dele, sendo abraçada e amada. Mas estou aqui, espremida entre dois bancos, no sequestro do meu sequestro.

Se um dia eu puder bater um papo com o roteirista da minha vida, vou avisar ele que tenho muito o que reclamar e eu não estou brincando.

— Ainda bem que essa porcaria de lugar é afastada, acabei de receber a informação que tem uma facção invadindo aqui também — o polícia no banco do passageiro fala e eu sinto meu coração disparar.

É o Elfo, eu sabia que ele viria me ajudar, nunca duvidei. Ele não me deixaria sozinha aqui por conta própria. Mas agora eu estou sendo levada. O que eu deveria fazer? Por que é sempre tão complicado assim?

— Mais um pouco e vamos estar fora daqui, o bom é que estão ocupado demais agora — o motorista fala e ri — e o melhor é que eles vão se matar, quantos mais deles morrer, melhor.

— Esses bandidinhos de merda é igual praga, morre um, aparecem dez — o outro responde.

— Eu não me importaria se colocassem fogo em tudo para essa gente nojenta e suja morresse tudo, acho que seria ótimo para limpar a cidade — o motorista fala e o outro ri concordando.

Que merda de policiais são esses? Que caralho de seres humanos eles são? Só consigo sentir nojo. São pessoas que vivem nos morros. Seres humanos incríveis. Esses comentários fazem subir um ódio, e tenho certeza quando olho para a Beatriz e ela está pedindo para que eu fique calma silenciosamente.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora