Capítulo 23

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Vanessa Aguiar

Me enfio embaixo das cobertas, eu sei que é errado o que eu fiz, sei que não deveria ter subido o morro, sei que não deveria ter saído com a droga de uma traficante, é claro que eu sei tudo isso. Mas eu também sei que os pais de verdade não agem da forma como os meus pais agiram, sei que quem ama mesmo protege, cuida e trata bem, e eles nunca foram assim comigo, nem com a Carol.

A verdade é que eu deveria ter ido embora no momento em que encontrei a Beatriz e ela me contou o que havia feito, eu não deveria nunca colocar nenhum tipo de esperança em cima deles. Eu não tenho pais no sentido próprio, tenho genitores que claramente odeiam ter colocado pessoas no mundo para cuidar.

Sinto mais lágrimas rolando pelo meu rosto, e não acho que vou parar de chorar tão cedo. Estou sentindo medo dos meus pais, isso não é natural, não é assim que as coisas devem ser.

Eu não queria me sentir tão apavorada, mas como eu me sentiria de outra forma se a Eliza falou coisas como consertar e purificar, como se eu quem estivesse estragada ou impura. Ela precisa de conserto, mas acho que nem mesmo Freud daria um jeito na loucura dela. Acho que ninguém no mundo conseguiria isso, melhor, os dois precisavam de um tratamento urgente, mas se bobear, até eu preciso depois de viver dezenove anos nessa loucura.

Talvez, eu nem sobreviva mais a isso. A verdade é que eu não queria morrer, mas também não sei se está valendo a pena passar por tudo isso... Calma, eu preciso manter a calma, preciso pensar de maneira racional!

Respiro fundo algumas vezes, mas não é o suficiente para me deixar calma, mas também para que ficar calma? Por que gastar minha energia dessa forma? Não vai resolver nada, preciso sim manter minha cabeça no lugar e me preparar para dias sombrios e cruéis, tenho certeza que eles não vão ter nenhuma clemência pela própria filha, por mim. Eu me sinto tão mal e fraca, que só quero chorar.

Preciso me manter forte, para que a eu do futuro sinta orgulho da eu de agora, da Vanessa que não desiste.

Fecho os olhos e começo a idealizar uma vida completamente diferente da que eu vivo atualmente, começo a pensar como seria se eu tivesse uma família unida. Talvez nesse momento a Carol não estivesse em outro país envolvida com pessoas tão erradas a ponto dela ter que se esconder e fingir não ter contato com a própria família, que no caso seu e apenas eu. Pelo menos tive sorte de ter a Carol na minha vida.

Escuto vozes perto do meu quarto e me estremeço inteira, isso significa que o meu pai finalmente chegou em casa, e se eles estão tão perto, é porque ele já sabe de tudo. Será que se eu alegar que quero ir embora, vou poder ir? Mas para onde eu vou? O que eu vou fazer da minha vida?

— Saí de debaixo das cobertas agora! — Estudo a voz do meu pai bem alta e grossa — Não me faça te arrancar daí pelos cabelos porque eu vou fazer isso se demorar.

Sem dizer uma sequer palavra, eu obedeço, mas meus olhos vão direto para o cinto de couro na mão dele, instintivamente eu já dou um passo para longe dele, sentindo medo, muito medo.

— Pai, vamos conversar, não faça isso comigo — Peço em tom de súplica.

— Não vamos conversar nada, você precisa aprender uma lição e eu vou te ensinar uma — Ele diz vindo na minha direção, mas eu tento me afastar novamente — Não foge de mim, tem noção do que você fez?

— Eu só fui a uma festa, eu não sabia de nada — Tento, ainda tentando me afastar, nunca fui tão grata pelo meu quarto ser tão grande — Eu não queria desafiar o senhor, não...

— Andando com bandido você me envergonha, inacreditável o que você está se tornando — Ele fala com nojo — Ainda teve coragem de mentir olhando nos meus olhos quando eu te perguntei onde e com quem você estava.

— Eu só não queria passar por isso, o senhor vai me machucar! — Exclamo um pouco alto.

—  É PARA MACHUCAR MESMO, PORRA! — Ele grita e eu me encolho um pouco  — NÃO CRIEI FILHA PARA SER PUTA DE BANDIDO, VAI APANHAR ATÉ TER VERGONHA NA CARA!

— Ele não é o tipo de bandido certo, é isso? — Pergunto com ironia vendo ele ficar ainda mais vermelho ainda, mas já que tudo está uma merda mesmo e eu não vou escapar dele — Um político, pode? ou quem sabe se for um policial corrupto que junta a alguma facção, aí pode?

— Vanessa, você vai apanhar como nunca apanhou antes na sua vida — Ele declara rude e finalmente me segura — E depois, você ainda vai ficar de castigo por tanto tempo que vai esquecer como é mundo lá fora.

— Eu prefiro ir embora, deixo tudo para trás e só levo a roupa do corpo, não vai mais saber de mim — grito enquanto me debato, tentando me soltar dele — Eu odeio você e ela!

— Não vai virar puta de bandido, eu proíbo! — Ele responde com raiva e eu sinto a primeira cintada nas pernas.

Um grito de dor sai pela minha garganta. Roberto tem muita força, não adianta eu tentar escapar das mãos dele, eu sei disso. Então, eu sinto mais cintadas, ele acerta várias partes do meu corpo, e eu sei que cada lugar vai ficar um roxo enorme. Até mesmo no meu rosto.

Ele me joga no chão quando se cansa, e eu estou sentindo dor demais para tentar me levantar.

— A partir de hoje você está proibida de sair desse quarto, vai ter a alimentação regulada, e não vai poder ter nenhum acesso com a internet, com celular e nem com o mundo lá fora — Ele avisa, e eu apenas me encolho. — Você precisa aprender a me respeitar e se respeitar, e eu ainda vou pensar em como você vai se redimir.

Não respondo, meu corpo inteiro dói muito e eu só choro.

E o que ele está falando sobre me redimir? O que ele fez hoje não foi o suficiente? Escuto seus passos e a porta sendo batida e só sinto vontade de chorar, não quero me levantar daqui, não quero nada. Como pode? Ele é o meu pai e mesmo assim me trata como se eu fosse nada, pior que nada.

Tento respirar fundo, mas não consigo, meu nariz está congestionado e eu só sinto dor. E pior de tudo, eles vão de novo me deixar presa aqui dentro em um cárcere privado. Eu odeio tanto tudo isso.

Preciso me acalmar para pensar no que eu vou fazer, por isso me levanto e mesmo mancando, caminho até a minha cama e me deito, ela está quente e confortável. Eu vou pensar e quando eu estiver bem e saudável, eu vou fugir daqui, não sei para onde eu vou e nem como, mas eu vou fugir e eles nunca mais vão me ver.

Felizmente sou maior de idade, e eles não podem me obrigar a voltar, eu só vou precisar me recuperar disso. E depois será adeus à casa dos Aguiar.

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Oie, tudo bom?

Espero que tenham gostado do capítulo ❤️

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Assim que batida, eu posto o próximo capítulo ❤️

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora