Capítulo 09

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Vanessa Aguiar

Acordo cedo e me arrumo para o curso, coloco uma calça wide leg que me sinto mais confortável e não vai apertar as minhas pernas, não quero sentir dor, mas estou realmente feliz que vou poder sair de dentro dessa prisão hoje, não aguento mais ficar aqui.

Às vezes tenho a sensação que a minha própria casa é um cativeiro.

Termino de me arrumar e pego a minha mochila, não vou tomar café da manhã em casa, não quero me sentar à mesa com o Roberto, se ele já tiver voltado, e também não quero me sentar com a Eliza, ainda estou muito chateada e com raiva, tomar café da manhã com eles seria apenas para perder o apetite e definitivamente isso não é algo que eu queira que aconteça, quando eu chegar no curso, vou direto para a lanchonete comer algo.

Saio do quarto torcendo para não encontrar ninguém pelo caminho, mas com a sorte que eu tenho era óbvio que não seria bem assim, vejo meu pai chegando em casa ainda uniformizado.

— Bom dia — Ele diz sério e eu continuo sem esboçar qualquer reação — Para onde está indo?

— Bom dia, estou indo para o curso, a minha mãe liberou ontem — Respondo sem qualquer expressão facial.

— Certo, pode ir, mas nada de ficar enrolando na rua quando a aula acabar, direto para casa depois — Ele avisa enquanto caminha até o sofá para se sentar, odeio quando eles agem assim, como se eu fosse uma criança — E eu vou saber se você aprontar qualquer coisa.

— Claro, pode deixar — Respondo me segurando para não revirar os olhos.

— Boa aula — Ele deseja e eu apenas sorrio sem vontade, saindo de casa.

Será que ele realmente acredita que isso é ser um bom pai? Ele me espancou essa semana, me deixou passar fome, mas desejou boa aula, logo depois de me ameaçar. Isso tudo é patético, e eu preciso dar um jeito de sair de casa logo, acho que vou ligar para a Carol, vou pedir ajuda para ela. Respiro fundo mantendo o foco, eu não vou surtar, vou pensar nas coisas com calma para só depois tomar uma decisão, e vai ser uma decisão inteligente.

Entrou no uber que eu pedi, infelizmente não é mesmo daquele dia, talvez se fosse, eu pediria alguns conselhos.

Rio de Janeiro sem trânsito não é o Rio, demoramos mais do que eu pensei que demoraria até chegar na escola, mas só de estar livre daquela casa para mim é uma coisa excelente. O motorista estaciona e eu pago o uber com o cartão, eles fazem da minha vida um inferno, mas pelo menos bancam tudo, é o mínimo que poderiam fazer quando não não são capazes de dar o mínimo de amor e respeito.

Quando saio do carro, já vejo a Laura me esperando encostada no muro do colégio e colada no telefone, eu gostaria de acreditar que ela não está falando com aquele Gota, mas a minha intuição grita que é justamente com ele que ela está falando. Desde quando a Laura se envolve com esse tipo de gente? Tá querendo ficar careca?

— Bom dia — Cumprimento ao me aproximar dela, que arregala os olhos sorrindo.

— Meu bem, ela chegou aqui, nos falamos depois... Tá bom, vou falar... mas ela não quer... Se ela disse não é não, seu amigo que lute — Ela diz e eu reviro os olhos, sabia que eu estava certa sobre a ligação — Beijo, até depois e não vou passar meu celular para ela, tchau... Tchau
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Ela desliga e pula em mim me abraçando, mas se afasta rápido ao ouvir eu arfar de dor, ainda tenho muitos roxos pelo corpo. Talvez um dia ele ainda me mate de tanto me bater, não sei se devo ficar preocupada ou completamente em pânico com essa situação, mas hoje não vou pensar sobre isso.

— Como você está? Te machuquei? — Ela pergunta preocupada me olhando de cima embaixo.

— Está tudo bem, só não pode ficar me apertando desse jeito e tudo certo — Respondo calma — Eu estou com fome, não quis comer em casa, vamos para a lanchonete e eu aproveito e mato logo a sua curiosidade.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora