Capítulo 58

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Vanessa Aguiar

Eu me sinto exausta, e com fome. Tudo bem que nada se compara a espera angustiante na delegacia mais cedo, mas todo esse percurso foi completamente cansativo. Primeiro fazer o exame de corpo de delito, levar o exame mais as fotos para a delegacia da mulher, o que me trouxe um certo alívio já que definitivamente eu não queria fazer o boletim de ocorrência na mesma delegacia que o meu pai tinha tanto poder, até porque isso me faz ter certeza de que não resolveria nada, o processo seria facilmente arquivado.

Felizmente, com o processo correndo, eu posso pedir uma medida protetiva e ele terá que ficar longe de mim, não que eu ache que isso seja realmente eficaz, estou cansada de ver casos de mulheres que pedem esse tipo de medida e ainda assim são mortas, é ainda pior no caso do meu pai que acredita estar acima da lei e da razão, como se ser a droga de um delegado lhe desse o direito de fazer qualquer coisa.

— No que tanto pensa? — Escuto a voz da Lúcia e olho para ela, Lúcia tem o cabelo loiro e liso, os olhos castanhos e sempre se veste de maneira elegante e refinada, a Laura se parece bastante com ela — Vanessa? Está ouvindo?

— Estou! Estou sim! — Respondo com um sorriso pequeno e sem graça — eu estava pensando sobre o meu pai e se realmente um documento que diz que ele não pode chegar perto de mim é o suficiente para me proteger.

— Você não precisa de um papel para te proteger, porque tem muitas pessoas dispostas a fazer isso — Ela fala firme e tranquila e eu sorrio, porque sinto a verdade das suas palavras — Isso é apenas para o seu pai saber que não estamos para brincadeira, e que não vamos deixar as coisas como estão. Ele não pode agir como se fosse do da lei.

— Ele não pode fazer tanta coisa que ele faz — Eu brinco e rio soprado. Não tem realmente graça, acho que estou rindo muito mais de raiva e desgosto do que qualquer outra coisa.

— Por que você nunca me contou? — Ela pergunta em um tom suave, sem julgamentos e eu quase acredito que um pouco de culpa e isso me faz travar no lugar.

Eu não sei como explicar que não confiava nela, porque essa é a verdade. Chamar a Lúcia hoje foi um completo ato de desespero. Foi o que nos salvou, mas ainda assim foi uma medida desesperada. Eu tive tanto medo que ela fosse apoiar meus pais nisso, nessas punições e mesmo hoje acreditei que ela só tiraria a Laura de lá. E isso já me faria feliz, porque ver a minha melhor amiga bem, me faz bem, mas eu não esperava que ela fosse olhar para mim e para a Manuela, não achei que ela fosse dispor de tanto tempo.

— Pode ser sincera, vamos falar sobre isso enquanto ainda não chegamos em casa — Ela pede e me olha de canto.

— Tudo bem, é que me pegou de surpresa e eu não sei muito bem como falar disso — Eu confesso sem graça.

— Do seja sincera e diz tudo o que está passando na sua mente, tudo o que passou — Ela explica e eu respiro fundo juntando forças — E eu não estou falando só de agora que esse problema tomou essa proporção gigantesca, estou pedindo para que me explique porque nunca me falou sobre isso ao longo da sua vida — Ela continua esclarecendo o ponto dela e eu presto atenção — Eu te conheço desde que você era um pinguinho de gente, você cresceu dentro da minha casa por causa da amizade com a Laura, é claro que eu tenho carinho por você, te vi crescer.

— E meus pais me tiveram, e ainda assim são os piores após do mundo — eu falo um tanto chateada.

— Eu sinto muito por isso — Ela fala e eu vejo verdade em seu pesar — mas não terá de passar por nada disso mais.

— Isso é reconfortante — Falo sincera e suspiro — eu nunca falei nada por achar que ficaria do lado deles, e também era vergonhoso, era mais fácil segurar a barra e fingir que estava tudo bem, não que fácil se enquadre muito bem nessa explicação, mas ainda assim — Fecho os olhos por um momento enquanto inspiro e expiro para poder continuar falando. É um saco, porque eu estou me sentindo um caos e completamente cansada — eu queria me sentir segura e eu tive medo que pudesse ser como eles.

— Compreendo, eu nunca fui muito presente — Ela comenta e ri baixo — a prova disso é a minha filha estar se envolvendo com um traficante.

— Até eu começar a fazer igual, também fiquei muito chocada com a atitude dela — comento fazendo ela rir.

— Então a Laura é a mente influenciadora... bom saber — Ela constata e eu sorrio, porque isso está deixando o ambiente mais leve e fácil de lidar.

— Exatamente, eu sou completamente inocente — Falo em um tom de falsa inocência e ela ri alto.

— Eu acredito, pode deixar — ela responde rindo e suspira.

Ficamos em silêncio novamente, mas o clima está bem mais leve e é tão bom poder contar com ela e poder conversar assim, eu realmente estou feliz com isso.

— Não precisa ficar com medo de me contar nada, e sempre pode pensar em mim como uma madrinha, apesar de eu não ser mesmo, mas eu sempre vou estar aqui por você, assim como estou para a Laura — Ela diz suave e eu sorrio pelo carinho — Nós vamos dar um jeito em tudo isso e parar o seu pai, você vai ficar bem. Eu garanto.

— Obrigada, de verdade, isso é muito importante para mim —  Respondo com um sorriso enfeitando o meu rosto.

Me sinto indiscutivelmente mais leve. A Lúcia tem sido incrível desde o momento em que pisou naquela delegacia, eu acho nunca poderia dizer o quão grata sou por ela estar agindo assim, isso é tranquilizante.

E agora que estou respirando mais leve, sem tanto medo e sem a minha mente travada no que pode acontecer ou deixar de acontecer.

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@ thainarro

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora