Capítulo 60

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Vanessa Aguiar

Ele me puxa para perto dele no momento em que eu fecho a porta, me abraçando apertado e eu retribuo, retribuo, deixando meu rosto colado contra o seu peito, até posso ouvir e sentir seu coração batendo. Essa não era a reação que eu estava esperando. Sendo muito sincera, achei que ele ia brigar, talvez gritar um pouco, mas essa foi com certeza uma reação melhor, uma surpresa agradável de se ter. É muito bom sentir os braços dele ao redor do meu corpo, a maneira como isso faz com eu me sinta protegida é maravilhosa.

Ficamos assim por alguns... segundos ou minutos, não sei. Por mim eu ficaria ainda mais tempo, mas sinto ele se afastando cuidadosamente, sua mão vai no meu rosto, me fazendo olhar diretamente em seus olhos e ele me beija suavemente. Não tem língua, não tem desespero, é só um beijo suave e carinhoso.

— Como você está? — Ele pergunta com a voz baixa e suave e eu sorrio pequeno.

— Estou bem, na medida do possível — Respondo e suspiro — Eu não queria que nada disso tivesse acontecido, me sinto um pouco, quero dizer, me sinto muito culpada pelo que a Manuela e a Laura passaram, eu não deveria ter levado elas, nem mesmo deveria ter concordado depor sem um advogado, eu fiz tudo errado.

— Não, nada disso é sua culpa — Ele fala sério enquanto me olha nos olhos — Não se sinta mal por isso. E mesmo se a juíza não tivesse aparecido, nada teria acontecido. Eu teria dado um jeito de arrumar essa confusão, nem que fosse colocando meu amigo desembargador para ir atrás de alguma solução. E a Lúcia estava certa, eu tinha mais experiência, eu deveria ter ficado mais esperto sobre como agir.

— A verdade é que o maior culpado é o meu pai — Eu falo chateada e sinto um nó se formando na minha garganta — Eu estou muito cansada de tudo isso que eles estão fazendo.

— A gente vai resolver isso — Ele fala e me puxa para outro abraço.

Dessa vez eu sinto uma enorme vontade de chorar, como se todas as lágrimas que eu prendi ao longo do dia estivessem brotando e jorrando pelos meus olhos sem que eu pudesse ter qualquer tipo de controle. Tudo está doendo, principalmente a minha alma. É como se a imagem do meu pai se preparando para me dar um soco no rosto estivesse voltando, ou como o gosto amargo da realidade, meus pais não me amam, estivessem presentes.

Tudo parece estar girando, mas os braços dele ao meu redor me mantém de pé.

Ele me puxa para mais perto e me pega no colo, logo sinto a cama macia embaixo de mim e ele me abraçando, é gostosa essa sensação de cuidado e proteção, me faz sorrir de maneira sincera e verdadeira, mesmo que ainda estejam escorrendo muitas lágrimas pelo meu rosto. Eu acho que por estar me sentindo tão protegida com ele, meu cérebro e meu corpo entenderam que eu poderia deixar tudo o que eu estou sentindo agora sair.

Não sei quanto tempo precisei, acho que nunca tinha me sentido tão frágil e demonstrado tanto na frente dele. Espero que eu nunca me arrependa de confiar nele da maneira que eu confio. Espero que ele não decida um dia magoar meus sentimentos, porque mesmo que ainda não tenhamos dito nada, o que eu sinto por ele é muito forte, se ele quebrar meu coração eu ficarei completamente despedaçada, sequer sei como iria me recuperar de um baque assim. Mas não vou pensar nisso, vou focar no agora que ele está aqui do meu lado me dando apoio.

— Eu estou bem agora — falo com a voz rouca e ele sorri pequeno me olhando — Você está muito irritado?

— Por que você acha que eu estou irritado? — Ele pergunta arqueando a sobrancelha e eu sorrio um pouco.

— Porque graças a tia Lúcia eu sei o seu nome, Murilo, e a Manuela ficou sabendo que você tem um mandato de prisão — Eu esclareço o motivo do meu questionamento e vejo ele respirar fundo, como se estivesse tentando ficar calmo — Eu estou na cama com um foragido, será que isso me faz cúmplice?

Anatomia do Caos - MorroOnde histórias criam vida. Descubra agora