Capítulo 62

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Vanessa Aguiar

Talvez eu tenha pensado cedo demais e tenha cometido um leve engano. O que ta ruim, sempre pode piorar.

Eu simplesmente sei qual é a casa que a Manu está me levando ao ouvir os gritos que estão vindo de dentro dela, a coisa definitivamente está péssima por aqui, me pergunto se eu realmente preciso conversar com ele agora, porque não está parecendo uma boa ideia, mas, ao mesmo tempo, tenho que falar o que estou pensando e resolver isso.

Ainda mais agora com essa história da Carol, eu quero acreditar com todas as minhas forças que por pior que eles sejam, eles não matariam ela simplesmente por ir embora, viver a própria vida, mas, ao mesmo tempo, sei que sim, eles são capazes de qualquer coisa e isso é tão desesperador que eu só sinto vontade de chorar.

Pessoas como eles deveriam ser proibidos de ter filhos, essa é a verdade.

Respiro fundo, criando coragem, mas acabo parando no meio da rua ao ouvir alguns disparos. Meu coração acelera e eu olho para a Manuela com os olhos arregalados. Ela me olha da mesma forma por um segundo, mas rapidamente já se recompõe e se aproxima de mim devagar.

— Eu acho melhor eu ir sozinha ver o que aconteceu e você espera — Ela fala receosa e eu fico dividida, eu deveria ir até lá? Eu deveria esperar longe? O que será que aconteceu ali? — Está me escutando, Vanessa?

— Estou, e eu acho que eu deveria ir até lá — Eu falo após puxar bastante ar e soltar devagar.

— Você tem certeza? — Ela pergunta preocupada.

— Claro que tenho — Respondo com o máximo de segurança que consigo demonstrar, mas a verdade é que eu não sei de nada.

— já que você tem certeza — Ela fala dando de ombros.

Ela volta a andar e eu a sigo, tenho que estar preparada para independentemente do cenário que eu vá encontrar. Ele pode ter atirado em alguma coisa, pode ter atirado em alguém, meu Deus, ele pode ter acabado de ter matado alguém e eu vou ver um cadáver no chão? Talvez eu devesse ter feito o que a Manuela recomendou. E ainda existe um cenário ainda pior, e se alguém tiver atirado nele?

Não, se existisse essa possibilidade eu tenho certeza que a Manuela não estaria nessa tranquilidade toda, ela já teria surtado e gritado com pelo menos uns cinco e estaria indo atrás de quem quer que pudesse ser o assassino e conhecendo ela como eu já conheço, ela mataria cada um dos envolvidos com algum requinte de crueldade e sem hesitar, tenho certeza que seria assim.

Eu nunca ouvi nada sobre a Manuela ter matado ou machucado alguém, mas o senso de proteção dela com o irmão é forte e o pior de tudo, é que eu também nunca matei ninguém, mas provavelmente faria para protegê-los porque eles são a família que escolhi e que me escolheram para estar junto é isso o que importa. Os laços que escolhemos fazer.

— O que está acontecendo aqui? — A Manuela pergunta no momento em que entra na casa e eu entro logo em seguida e já começo a olhar ao redor.

Não tem nada de mais, parece uma sala normal com um sofá no canto e um armário e uma mesa com três cadeiras, uma que deve ser a do Elfo e outras duas de frente à mesa. Tem duas portas além da que entramos, me sinto curiosa para explorar o lugar, mas acho mais prudente esperar.

— O que vocês estão fazendo aqui? — O Gota pergunta saindo de uma das portas.

— Eu precisava falar com o Elfo urgentemente — Explico e ele fica em silêncio parecendo refletir — Cadê ele?

— Ele está ocupado, acho melhor você voltar para casa e esperar para conversarem lá — Ele fala em um tom de aviso e olha para a Manuela — Você sabe que não deveria vir até aqui, a qualquer hora e sem avisar.

— Eu achei que não teria problema — Ela fala sem graça e respira fundo — mas antes da gente ir, o que está acontecendo?

— Limpeza — Ele responde simples, mas isso parece fazer sentido para ela, já ela abre a boca em um O e assente.

— Vamos embora — Ela fala se virando para mim, mas, ao mesmo tempo, o Elfo entra pela segunda porta.

Tudo parece em câmera lenta por alguns segundos. O Elfo tem uma arma na mão e está sujo de sangue e a expressão dele está péssima, acho que nunca o vi assim, eu não sei quais seriam os adjetivos corretos para usar, mas algo como assustador e fodidamente gostoso.

Talvez eu esteja louca tendo esse tipo de pensamento, mas olha esses ombros largos e rígidos, o maxilar dele está travado e os olhos parecem estar fervilhando de raiva, mas toda a aura dele exala poder. Eu deveria tirar esse talvez, eu estou completamente louca pensando coisas assim.

— O que estão fazendo aqui? — Ele pergunta ao finalmente nos notar aqui, mesmo que a Manuela já esteja me chamando para que a gente vá logo embora.

— Eu precisava falar com você, mas você parece estar ocupado — Explico olhando para ele, me pergunto se eu estou piscando ao menos um pouco.

— É realmente estou, mas estou terminando — Ele responde e parece pensar um pouco — Me espera logo ali na frente tem um barzinho, pode ir até lá e eu vou daqui a pouco.

— Tudo bem, nós estamos indo — A Manu responde e segura no pulso, me puxando para fora da casa.

Ela só me solta quando já estamos do lado de fora e afastadas, mas continua andando e eu a acompanho enquanto deixo para trás a imagem mental do Elfo como eu ainda não tinha visto.

— O que é a "Limpeza"? — pergunto curiosa e em um tom baixo, já que imagino que não seja nada bom.

— Ele provavelmente descobriu traidores, x9, ou alguém que tentava fazer jogo duplo, algo nesse sentido e "limpa" a facção — ela explica e faz as aspas com os dedos. — Quando isso acontece, eu prefiro estar longe.

— Ele estava com uma expressão diferente das que eu já vi — comento, mas imagino que a resposta seja porque eu nunca o vi logo depois bater em alguém a ponto de ficar sujo de sangue, e se eu pensar bem sobre o disparo...

— É porque você nunca está com ele durante o trabalho, ainda bem nesses momentos, com você ele sempre tem um jeito diferente — Ela explica e eu aceno dando a entender que entendi — Vamos esperar ele ali.

Ela indica um bar que parece uma lanchonete e continua andando. Assim que sentamos, ela pede alguns salgadinhos e um refrigerante.

Eu fico um pouco imersa nos meus pensamentos, não é como se eu não soubesse que ele é assim, frio, assassino, ele não estaria onde está, mas o que realmente me surpreende é que pensar nisso não me incomoda mais. E agora pensando melhor, será que isso em algum momento realmente me incomodou ou eu estava apenas estava fingindo?

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@ thainarro

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora