Capítulo 34

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Vanessa Aguiar

A Laura me guia pelas ruas até chegarmos em uma casa grande em comparação com as outras, mas definitivamente tão sem graça e sem acabamento como as outras. Eu sei que deveria ter prestado atenção no caminho, mas tudo o que eu fiz foi ficar com o assunto sobre ficar no morro na minha mente. Quanto tempo eu teria que ficar aqui? Será que eu conseguiria me adaptar a um ambiente tão diferente?

No fundo e não tão no fundo assim, eu sei que não é como se eu tivesse muita escolha, eu preciso de um lugar seguro para ficar e se eu não achar, vou ser arrastada de volta para aquela casa e não sei se eu sobreviveria ali.

— Aqui é a casa da Manuela, você vai gostar dela — A Laura diz abrindo um portão e eu me assusto ao me deparar com um cara com uma arma enorme apontada.

— Eeee loirinha, já te avisei para não abrir o portão assim do nada, tem que avisar cara! — Ele fala baixando a arma e eu acho que vou infartar a qualquer momento.

— Desculpa, Ninja, vou ficar mais atenta — Ela responde sorrindo e eu ainda acho que o meu coração vai atravessar o meu peito de tão forte que ele está batendo.

Ninja é uma cara alto, parece um magrelo bem definido, tem os olhos puxados, não sei se de descendência asiáticos ou indígena. E apesar de quase ter me matado do coração e possivelmente com uma bala, ele tem um sorriso muito bonito.

— Se cuida hein loirinha — Ele responde e depois me olha de cima embaixo — Quem é sua amiga?

— Vanessa, ela vai ficar aqui uns dias — Ela responde me puxando para dentro — A Manuela está aí?

— Tá lá dentro, pode ir que você já sabe o caminho — Ele fala indicando uma porta e depois sorri de lado me olhando — Vai ser bom ter uma gata dessa por aqui.

— Cuidado com o que você fala — Escuto uma voz feminina, eu tenho uma vaga lembrança dessa Manuela de quando eu cheguei essa madrugada com a Laura — Tem gente que não ia gostar nada de te ver falando assim.

— Quem? — Ele pergunta arqueando a sobrancelha.

— Meu irmão — Ela responde sorrindo e ele arregala os olhos, enquanto a Laura começa a rir — Vem, meninas, entrem.

Laura me puxa para seguir a Manuela e eu presto atenção nela. Ela tem um corpo muito bonito, coxas grossas, cintura marcada e seios médios pra grande, e a pele morena e várias tatuagens pelo corpo, e um cabelo cacheado, preso em um coque. E ela anda com segurança e tem um tom de voz que parece naturalmente mais alto. E principalmente, a Manuela parece alguém bem legal.

— Vou te mostrar o quarto que você vai ficar, e pode ficar tranquila sobre o tempo que vai ficar nele, ok? — Ela fala quando entra em um corredor — O quarto do final do corredor é o meu, esse de frente é do Elfo e esse aqui vai ser o seu.

Ela fala e abre a porta do quarto dando espaço para que eu e a Laura entrasse. O quarto tem um tamanho legal, provavelmente o meu quarto daria uns três desse, mas não estou em posição de exigir alguma coisa.

A cama parece confortável e tem um guarda roupa grande, uma mesa com uma cadeira em um canto e um carpete cinza no chão. Está tudo visualmente agradável.

— Esse quarto não tem banheiro, vai ter que usar o do corredor, tudo bem? — Ela pergunta encostada no portal.

— Está tudo ótimo, obrigada por isso — Respondo com um sorriso pequeno.

— Vou deixar você se adaptar — Ela diz puxando a porta e eu coloco a mochila no chão.

— Espera! — A Laura pede e a Manuela olha para ela confusa — Pode entrar, acho que vocês precisam se conhecer um pouco mais.

— Pode entrar — Reforço e ela sorri abertamente.

— Legal — Ela diz indo sentar na cadeira perto da mesa — Posso fazer uma pergunta?

— Pode sim — Respondo sentando na cama.

— Como você saiu daquela casa? — Ela pergunta curiosa — Eu estive lá, tava lotada de seguranças e seu quarto não era no primeiro andar.

— Escalei a parede na lateral do quarto até onde deu, pulei e com pulei quero dizer cai no chão, um segurança me viu e ficou com dó de mim e eu corri o máximo que pude para achar um lugar seguro para me esconder até a Laura chegar — Explico e ela assente.

— Você tem muito cara de patricinha, não te imagino fazendo nada disso — Ela comenta e eu e a Laura rimos.

— Ela é uma patricinha — A Laura diz deixando bem enfatizado e eu dou de ombros.

— Não nego e nunca negarei — Respondo achando divertido — Mas a questão é que eu precisava fazer, e mesmo sendo uma patricinha, tinha que aprender a me virar em algumas coisas, como ter habilidades para sobreviver e quando eu era mais nova, meu pai me ensinou sobre autodefesa e uso de arma de fogos de pequeno porte. Então eu também tenho um pouco de habilidade motora.

— E é quase uma ratinha de academia — A Laura completa — Tem muito preparo físico.

— Interessante, olhando para você, eu nunca imaginaria isso — Ela fala e eu rio.

— Acho que a gente, ser humano, tem a mania de estabelecer um padrão sobre determinados grupos e achar que todos dentro deles são iguais — Comento dando de ombros.

— Eu posso fazer mais uma pergunta? — A Manuela pergunta e eu aceno, imagino que ela esteja bastante curiosa sobre o que está acontecendo comigo — O que te fez fugir? Eu vi as marcas, e me desculpa a indiscrição, mas é que... Como eu posso falar? Demorou muito.

Eu fico em silêncio pensativa, eu acabei de conhecer ela melhor, e não foi muito, será que eu deveria falar sobre o que aconteceu em detalhes? Não gosto que sintam pena de mim, mas se bem que eu já estou aqui por isso. E eu não gosto nada disso. Respiro fundo, indecisa.

— Se não quiser falar, está tudo bem — Ela diz rápido.

— É só que... eu explico — digo conformada — Eu achei que se eu continuasse lá, acabaria morrendo. Eles sempre foram controladores, até agressivos, e eu já tinha ficado de castigo antes, mas dessa vez foi muito pior e por isso eu decidi que ou eu fugia ou ia sair de lá direto para o cemitério.

— Que loucura, sinto muito que sua família seja assim — Ela diz complacente e eu sorrio pequeno.

— Já estou acostumada, só não posso mais ficar por perto — Respondo dando de ombros.

E  antes que eu possa falar mais alguma coisa, o telefone da Laura toca. Ela conversa rapidamente com a mãe dela e fica de pé, fazendo outra ligação, desta vez para o Gota. Eu e a Manuela não falamos nada para que ela possa conversar melhor ao telefone.

— Eu preciso ir agora, mas me liga qualquer coisa — A Laura diz me olhando e eu sorrio para ela, e então ela olha para a Manuela — Cuida bem da minha melhor amiga, por favor.

— Fica tranquila — A Manuela responde rindo.

— Eu vou ficar bem — Falo olhando para a Laura — Quando eu configurar o celular, te mando mensagem.

— Vou ficar esperando – Ela responde e me abraça. — Te amo.

— Te amo — Respondo enquanto ela se afasta.

A Laura se despede e sai, me deixando sozinha com a Manuela  no quarto. Eu ainda não me sinto muito à vontade, acho que é por causa de tudo o que aconteceu.

— Eu vou te deixar sozinha agora, mas depois eu venho aqui te chamar para jantar — Ela fala ficando de pé.

— Obrigada — Respondo com um sorriso pequeno.

— Pode ficar tranquila — Ela diz saindo do quarto.

No momento em que fico sozinha deito na cama, olhando para o teto. Minha vida virou do avesso, completamente. Respiro fundo e devagar, deixando o ar entrar e sair do meu pulmão.

E quanto mais eu penso, mais percebo que a minha melhor opção é pedir proteção para o Elfo por aquele favor que ele está me devendo, porque eu sei que não vou ficar bem se eu só sair por aí.

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora