Capítulo 07

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Vanessa Aguiar

O trânsito está um pouco mais calmo do que eu estava esperando, e eu não sei se isso é bom ou não. Eu sei que tenho que chegar logo em casa, mas sei o que me espera quando isso acontecer. Meu pai vai me bater até que eu não aguente mais ficar de pé e a minha mãe vai ficar em silêncio me olhando. Respiro fundo, preciso sair daquela casa logo, eu já tenho mais de dezoito anos.

Felizmente logo chegamos a casa da Laura e o carro estaciona na porta e ela me olha receosa.

— Tem certeza que vai ficar bem?  — A Laura pergunta pela quinta vez desde que entramos no carro.

— Tenho certeza, eu sempre fico bem, não se preocupa — Respondo sorrindo para acalmá-la.

— Me liga qualquer coisa que acontecer — Ela diz abrindo a porta do carro — É sério, Vanessa.

— Eu sei, fica tranquila — Falo, mas a verdade é que eu não estou nenhum pouco tranquila —  Eu mando notícias quando eu puder, eu não vou morrer hoje.

— Espero que não mesmo — Ela diz e sai do carro de vez — Até depois, e fica bem.

— Tchau Laura, até depois — Respondo fechando logo a porta e acenando. Estou cansada de sorrir, porque a verdade é que eu estou em completo desespero, vejo ela acenando enquanto o motorista começa a dirigir.

— Moça, tem certeza que quer ir para o segundo endereço? Posso te levar para a polícia — Ele diz e eu rio.

— Não moço, pode me levar, só estou indo para casa — Respondo, mas minha voz já está um pouco embargada.

— Mas parece que está indo para uma fogueira e que vão te queimar viva — Ele comenta e eu suspiro — É sério, a gente pode ir para a delegacia, você é maior de idade?

— Eu sou maior de idade, e ir para a delegacia não resolveria a minha vida, meu pai iria me buscar de qualquer forma, ele é delgado — Falo dando de ombros — O melhor que eu posso fazer é ir para casa.

— Ou arrumar uma casa para você — Ele comenta e eu rio, até o motorista de uber que eu nunca mais vou ver já sabe que a minha vida em casa é uma merda — Você é bonita, com todo respeito, porque não vira aquilo que os jovens gostam muito, minha filha disse que dá muito dinheiro, até fica fazendo umas dancinhas pela casa.

— Tiktoker? — Pergunto rindo enquanto concorda — Eu acho que isso não é para mim não.

— A situação faz a pessoa, e se você precisa sair de casa para viver bem, deveria pensar nas possibilidades que a internet dá para vocês jovens — Ele diz e estaciona em frente a minha casa — Mas eu sou só um uber.

— Tudo bem, o senhor tem razão, eu preciso colocar um cropped e reagir — Eu falo e ele me olha confuso e eu rio — Vou pagar no cartão.

— Eu não entendi muito bem, mas isso de reagir, tem que reagir mesmo — Ele diz pegando maquininha.

Eu passo o cartão e me despeço dele e antes de entrar em casa avalio a corrida dele com cinco estrelas porque ele realmente merece, tenho certeza que eu só não estou chorando sem sequer conseguir respirar porque ele me distraiu.

Respiro fundo e entro em casa, tento ser silenciosa, mas quando entro na sala me deparo com o meu pai segurando um livro e um café. Ele me olha com raiva e eu respiro fundo.

— Bom dia, cheguei — Falo baixo e me encolho um pouco quando ele se levanta — Vou para o meu quarto.

— Bom dia? Já é boa tarde, e eu sequer me lembro de ter deixado que você saísse de casa — Ele profere rude.

Eu fico em silêncio olhando para ele, sei muito bem que não existe nada que eu diga que vá fazer com ele se controle, ele não se importa comigo, então eu nem mesmo tento explicar ou fazer com ele veja que eu sou uma pessoa também, que eu tenho uma vida e sentimentos, que eu sinto dor, não tento explicar nada.

— Não vai falar nada? — Ele pergunta e atinge meu rosto com um tapa, sua mão é pesada e eu sinto que meu lábio se partiu — Acha que é dona da sua própria vida? Não enquanto viver no mesmo teto que eu, não enquanto eu pagar suas contas e tudo que você tiver, ter sido comprado com o meu dinheiro.

— Então está na hora de eu sair de casa como a minha irmã — Respondo, mas me arrependo no mesmo instante. Ele me olha com raiva e começa a tirar o cinto — Pai, não faz isso, por favor.

— Você precisa aprender a me respeitar! — Ele grita e eu dou alguns passos para trás — Acha que pode sair por aí feito uma vagabunda e depois me desafiar dessa forma? Vou te mostrar como as coisas são!

— Eu já tenho dezenove anos, pai, não pode fazer isso comigo só porque estou vivendo a minha vida — falo, mas não adianta nada — Pai... não.

— Eu to farto de falar e você não me escutar, Vanessa, vai aprender a me obedecer seja por bem ou seja por mal, eu não queria que fosse assim, mas você está sempre dando motivos — Ele esbraveja e segura o meu braço.

— O senhor está me machucando — Falo, mas ele aperta mais.

— Isso aqui é para você aprender uma lição — Ele diz e então eu sinto a primeira cintada.

Eu grito por causa da dor, e ele continua, mais uma e mais, minha pele está ardendo muito. Meu pai tem muita força e usa toda a que consegue a cada cintada, posso sentir o coro cortando a minha pele, eu grito e choro, e quanto mais eu me debato tentando me soltar dele, mais ele me agride.

— Chega, Roberto, deixa ela ir para o quarto — Escuto a minha mãe, mas não olho para ela.

— Ela tem que aprender uma lição! — Ele exclama me segurando e é só por isso que eu não estou caída no chão

— Já é o suficiente, chega — Ela pede e ele encara ela com raiva, mas ainda assim eu estranho ela estar intervindo — Sábado teremos um evento e ela vai precisar ir.

Agora fez sentido, sabia que ela não estava preocupada comigo.

— Você escapou por pouco, Vanessa, mas é melhor agir na linha ou isso não vai ser nada — Ele fala me soltando e eu caio no chão — E vai direto para o seu quarto, e só saia de lá quando eu autorizar.

— Sim senhor — Respondo com a voz quebrada e me levanto, sentindo muita dor pelo corpo.

— O celular — Minha mãe pede esticando a mão e eu fico em silêncio e parada — Você está de castigo por três dias sem o celular por ter saído escondido e voltado essa hora.

— Ainda bem que você lembrou, Eliza, eu já tinha esquecido que ela tinha que entregar o celular. — Roberto diz e eu respiro fundo, não queria ficar sem meu celular.

— Me deixa ficar com ele, por favor — Peço chorando, mas sinto meu cabelo sendo puxado com brutalidade para trás, e meu pai me segurando para que eu olhe para ele.

— Entrega essa merda agora, antes que eu arranque ele de você e quebre inteiro — Ele me ameaçou e eu apenas aceno, não tem o que fazer.

Tiro o celular do bolso e entrego para a Eliza, enquanto mais lágrimas saem dos meus olhos. Seria pedir muito que eles me amassem pelo menos um pouco? Eles são os meus pais, que droga!

Roberto me solta e eu caminho direto para o meu quarto, e sei que hoje só tende a piorar ainda mais.

Entro no quarto e me jogo na cama com cuidado, depois que sentir que já chorei tudo o que tenho para chorar, eu vou tomar um banho e comer alguma coisa, isso se eu puder sair do quarto para comer, ele já me manteve presa aqui por mais de um dia sem comida, não duvido que faça de novo.

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Oie, espero que tenham gostado 💜

Insta: thainarro

Beijinhos e nos vemos no próximo capítulo ❤️

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora