Capítulo 01

7.5K 449 71
                                    

Vanessa Aguiar

Desço do táxi sentindo meu coração disparado, é a primeira vez que entro em uma favela, a primeira vez que subo o morro, o som alto do funk já chega aos meus ouvidos e eu respiro fundo tentando aproveitar o momento, qualquer dia é dia de fazer uma loucura, certo? Eu espero que sim, porque talvez eu não esteja mais viva amanhã quando meus pais descobrirem o que eu fiz, mas hoje... hoje eu não pretendo me importar com nada.

— Vanessa, tá esperando o quê? Vamos logo — Minha amiga, Laura, me puxa fazendo eu sair do lugar, ela também nunca esteve aqui, mas teve a genial ideia de vir depois de fazer algumas pesquisas e brigar com sua mãe, uma juíza, ela decidiu que a melhor forma de ser teimosa era subindo o morro para o curtir o baile.

— Vamos, porque a noite é uma criança. — Brinco, segurando na mão dela para que a gente possa caminhar juntas, e para que eu me sinta um pouco mais segura.

Não sabemos exatamente onde está acontecendo o baile e nem qual caminho temos que fazer, estamos apenas nos guiando pelo som alto e pelo fluxo de pessoas, torcendo para que a maioria delas estejam indo para lá mesmo. Admito que senti um pouco de medo de vir para o morro, ainda mais esse que meu pai, que é delegado da polícia federal, sempre reclama sobre o quanto é perigoso, por isso não coloquei muitos adornos ou coisas muito caras. Eu não quero parecer preconceituosa ou algo assim, só estou sendo cuidadosa.

— Ali, tem muita gente daquele lado tá lotado, acho que é lá — Ela fala animada, dando pulinhos, e eu rio quando ela começa a me puxar em direção ao aglomerado.

— Você já pode admitir que queria vir aqui antes da briga com a sua mãe — Falo brincando e ela sorri sem sem jeito parando no lugar, e o meu sorriso começa a se desfazer — Porra! Você já queria mesmo? O que você está me escondendo?

— Eu não estou escondendo nada, eu só...

— Laura! Você veio mesmo gatinha ! — Um cara alto, pele amarronzada, vestindo uma camisa de time e uma calça com rasgos grita vindo em nossa direção, mas o que me assusta mesmo é o fato dele ter uma arma nas costas como se fosse uma mochila — Já estava achando que você era fake.

— Como você ia achar isso se eu fiz várias chamadas de vídeo com você? — Ela fala em um tom malicioso e eu me sinto atordoada. Que porra a Laura está fazendo da vida dela? Eu não posso acreditar que ela está se metendo com bandido.

— Verdade gatinha — Ele fala parando perto de nós e eu vejo que atrás dele, outros dois caras armados estão esperando — Finalmente a gente tá se vendo pessoalmente, eu estava ansioso para isso.

— Amiga? — Chamo atraindo a atenção dos dois, acho que a Laura simplesmente esqueceu que eu estou aqui — Acho que a gente precisa trocar dois minutos de conversa, rapidinho.

— Gota, deixa eu só falar com a minha amiga — Ela fala se afastando do homem que me olha com a sobrancelha arqueada, e eu tento não demonstrar o quão nervosa eu estou.

— Vai lá gatinha, mas volta logo que eu estava ansioso para te ver — Ele fala olhando para ela — Eu vou ficar esperando bem aqui.

— Eu já volto — Ela fala sorrindo para ele e eu puxo o braço dela e sorrio amarelo antes de me afastar um pouco com ela.

— Quem é ele? Por que não me avisou nada? — Pergunto, mas eu queria perguntar muitas outras coisas, mas não sou tão burra, já estou vendo pela cara dele que não gostou que eu afastei ela para conversar, e não vou arriscar falar algo, vai que ele escuta? Eu prezo muito pela minha vida. É uma vida boa? Não! mas ainda é minha e eu pretendo aproveitar muito.

— Eu já disse, conheci ele online e começamos a conversar, ele é muito legal e me convidou para vir aqui hoje, para de ser chata, vai ser divertido e a gente vai ficar bem — Ela fala sorrindo pequeno e batendo os cílios, como se isso fosse me convencer., quase reviro os olhos, eu já estou completamente arrependida de ter vindo, não deveria ter dia de fazer loucura.

— Fica de boa, vocês vão adorar o baile no morro e tá comigo tá com deus — O Gota fala sorrindo e se aproximando — Bora logo que eu tenho que ir no chefe ainda e vou pegar uma bebida para vocês.

— Claro, é isso que a gente está precisando, uma bebida para animar — A Laura concorda no mesmo momento e eu respiro fundo, nunca que eu vou beber uma bebida que ele pegar, acho que eu não vou beber nada aqui.

— Então é só me seguir, que vocês vão ficar por perto, bem a vista — Ele fala e puxa a Laura para perto dele, envolvendo a cintura dela — Você eu quero ainda mais perto, gatinha.

Ele segura na cintura dela a guiando e eu vou atrás, sendo seguida pelos caras que estão com ele, percebo que várias pessoas nos olham enquanto a gente passa, e era tudo o que eu não queria, chamar a atenção, minha intenção era só vir e me divertir um pouco, dançar e beber, mas não o suficiente para perder a noção, mas aparentemente a Laura já perdeu completamente a noção sem ter colocado uma gota de álcool na boca. E pensando sobre gota, que porra de vulgo é Gota? Eu deveria ter ficado em casa, consigo sentir isso dentro de mim.

— A gente vai ficar logo ali — O Gota avisa indicando um espaço que tinha muitos outros homens armados e mais algumas garotas dançando, mas o caminho até lá ainda está cheio, será que ali é uma área vip para bandidos e suas convidadas?

— Tudo bem — Ela concorda, porque eu mesma não sou capaz de dizer nenhuma palavra.

Quando chegamos no lugar que ficaríamos Gota pegou copos de vodka com suco para nós, e em menos de cinco minutos Laura já estava colada no Gota, os dois quase se engolindo, eu reviro os olhos e procuro por uma cadeira, um banco, qualquer coisa disponível, que eu me sentar, sinto como se tivesse olhares demais sobre mim e isso me deixa um pouco tímida sobre dançar.

Finalmente vejo uma cadeira desocupada e caminho até ela para poder me sentar, e estou cogitando começar a beber para ver se eu me animo de novo, acho que fui pega de surpresa. Queria ir embora, mas não tenho essa opção no momento, então preciso mesmo é ficar mais solta para aproveitar, mas não solta demais sem saber o que estou fazendo, é isso.

— Posso sentar nessa cadeira? — Pergunto para uma garota que está perto, ela me olha de cima embaixo e depois solta uma risadinha, não gostei disso, mas é óbvio que não vou brigar.

— Pode sim, patricinha — Ela fala com deboche e vira a cara, eu conto até dez mentalmente, não vou brigar... não vou brigar... eu sou patricinha, mas não gostei do tom dela, mas em terra desconhecida é melhor ter cuidado para não pisar em falso.

Apenas respiro fundo usando o resto do meu autocontrole e levo a cadeira, que é dessas de plástico, para mais perto de onde eu estava e me sento, olho em volta e não vejo mais a Laura, eu juro que mato aquela garota se ela me deixar sozinha aqui. Levo o copo de bebida até o nariz, cheirando o conteúdo, vai que tem algo estranho aqui dentro e depois coloco a ponta do dedo, mexendo no gelo, melhor prevenir.

— Se alguém fosse fazer alguma coisa com uma patrinha como você, não precisaria colocar nada em bebida nenhuma — Escuto um cara falando muito perto, já que o som está alto e olho ao redor procurando quem foi, e logo vejo, praticamente ao meu lado, em pé encostado no muro um homem alto, a pele clara marcada por várias  tatuagens, não consigo ver a cor dos olhos, mas tem os cabelos pretos e está fumando um cigarro — Mas pode

ficar tranquila, não aceito que esse tipo de coisa aconteça aqui, não.

— Nossa! Estou muito mais tranquila agora — Falo sarcástica e reviro os olhos.

— Eu nunca te vi aqui, qual seu nome? — ele pergunta e eu olho para ele arqueando a sobrancelha e viro o rosto, não quero papo com ninguém, tá na cara que ele é do crime também — Com a cara fechada como está, acho que não está curtindo muito o baile, cuidado para não ofender ninguém.

— Vanessa, meu nome é Vanessa — Respondo e finalmente dou um gole na bebida.

— Prazer Vanessa — Ele responde, mas eu não me viro para olhar para ele — Meu nome eu não tenho a intenção de falar, mas pode me chamar de Elfo.

Elfo... Eu conheço esse nome, já ouvi meu pai falando algumas vezes, e como uma epifania, a compreensão chega a minha mente, então me viro devagar percebendo que eu fui grossa com o dono do morro.

---------------------------------------------------------------------------------------

Oie, espero que tenham gostado do capítulo ❤️

@ thainarro

Anatomia do Caos - MorroOnde as histórias ganham vida. Descobre agora