Agosto IV

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No mesmo sábado, eu e o Renan fomos excluídos do grupo de WhatsApp do time. Sem explicações, sem despedidas.

Nenhum dos integrantes veio dizer qualquer coisa; acredito até que o Carlos os ameaçou caso alguém resolvesse conversar conosco.

No domingo, meu pai convidou meus tios para almoçar na nossa casa, mas tio Wagner deu a desculpa que a mulher estava passando mal e ficariam em casa. Meu pai insistiu e disse pro Carlos ir com o carro, sabendo (não sei como) que ele já trafegava sem a habilitação mesmo. Meu primo sequer atendeu o telefone.

Alívio foi o que senti, porque de jeito nenhum queria aquele encontro. Estava tentando adiá-lo o máximo possível. Sabe-se lá o que poderia acontecer.

Como estava relativamente tranquilo de afazeres no colégio, fiquei navegando na internet no domingo, pensando para responder um e-mail do Sander enquanto olhava algumas fotos no Facebook... e então percebi que meu primo havia me excluído do dele. E bloqueado. E me expulso do grupo secreto que tínhamos na rede também.

"Aguenta firme porque sei que você consegue."

A voz do Renan ficava retumbando na minha cabeça enquanto eu rolava a página principal, notando que muitas atualizações do pessoal da escola estavam desaparecendo, os números diminuindo, me contando que eles tinham me colocado ou na lista de restrito, ou me excluído mesmo...

"Aguenta firme porque sei que você consegue."

Estou acostumado a me preparar mentalmente para as mais diversas situações que possam ser constrangedoras ou ameaçadoras, coisas do tipo. Meu passatempo no ano anterior era ficar criando momentos imaginários em que eu teria de sair de encurraladas, ou responder perguntas com as quais meu coração se acelerava. O desafio era controlá-lo, deixar transparecer o menos possível que aquilo me afetava. Fazer a famosa cara de paisagem.

Quantas vezes imaginei meus amigos — ou quem eu ainda chamava de amigo na época — me questionando minha "obsessão" pelo Luiz Eduardo? Quantas vezes pensei que o João Vítor descobriria sobre mim, e quantas dessas vezes eu tive que parar o pensamento pra poder voltar a respirar?

Alguns desses momentos chegaram a acontecer — pelo menos uma parte deles. Mas nunca, nem no meu pior cenário, imaginei que aconteceria do jeito que estava acontecendo.

A semana seguinte no colégio foi repleta de rumores e fofocas. As meninas, Natália e Isadora, que já antes não vinham falando muito comigo, cortaram qualquer relação de proximidade também. Meu primo pediu para mudar sua carteira de lugar e foi para o meio da classe, elas o acompanharam. Quem sentou-se do meu lado direto foi a Camila e, atrás dela, o Diego.

É lógico que todo mundo ficou sabendo da expulsão, principalmente porque o Renan foi incluso nessa e o time passou a ignora-lo também. Não que estivéssemos nos importando muito — como ele comentou, não era isso que queríamos? Afastá-los? O problema era que a pressão de estar do lado de fora era muito palpável. Todos olhavam pra gente e, quem não sabia do ocorrido, ficava especulando.

"O que houve? Eles não são primos? Por que a expulsão? Quem brigou com quem? E por que o Renan também saiu? O time acabou de vez?"

Já na primeira Educação Física seguinte, na segunda, notei que a convivência com o resto das pessoas seria dolorosa. Por mais que fizéssemos exercícios conjuntos de alongamento, o professor Fernando tinha voltado com os esportes — futebol, claro, peteca e vôlei. Os grupos de todos já estavam formados, as panelinhas eram praticamente intransponíveis.

Com pesar, percebi que eu não me encaixava em nada a não ser no futebol. Foi um sofrimento constatar que uma das aulas que eu mais gostava havia virado um inferno. Sou péssimo em vôlei, e a maioria dos jogadores era da sala B... Peteca estava fora de cogitação porque era onde o grupo da Maria Eduarda se concentrava.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora