Fevereiro V

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Tento conter minhas "recaídas" durante o resto do mês de Fevereiro. Uso da escola como estepe para me empurrar semana após semana, e do Renan para me embalar com conversas aleatórias. Sander está ocupado em alguma parte do país dele em que a internet é precária, então seus e-mails são monossilábicos. Deixo-o viajar em paz por um tempo, sem que tenha que se preocupar comigo.... E eu sei que ele o faz, mesmo à distância – aliás, principalmente à distância, porque essa ideia dos e-mails foi justamente para que ele possa se manter atualizado dos meus pensamentos. Não é como um aplicativo instantâneo; ele sabe que se eu parar para pensar e escrever, as coisas saem menos confusas e mais verdadeiras. Quando falo mais espontaneamente é que me complico...

Acho que isso deve ser um problema, não é? Todas as vezes em que tenho que enfrentar alguma situação imediata sinto que sou incapaz. Me enrolo, desconverso, tropeço em mim mesmo. Nunca dou conta. Desde pequeno, acho que meus pais me ensinaram bem demais que eu preciso ser inteligente e pensar antes de qualquer coisa se não quiser ferrar com meu futuro. Se eu não tenho tempo suficiente para pensar, nada sai.

Ou até sai, mas desastrosamente comprometedor. É frustrante.

De qualquer forma, na sexta da segunda semana do mês começaram nossos "Dia D", apelidado carinhosamente de Dia De Bagunça. A primeira missão, por assim dizer, era ir à escola de pijamas. Isso mesmo: pijamas. De início não acreditei que o pessoal fosse realmente levar isso a sério, mas foi só colocar o pé portão adentro que notei como estava completamente enganado.

Todo mundo do terceiro ano estava de pijamas na escola. Digo, quase todo mundo. Algumas pessoas mais tímidas vestiam só uma calça de moletom daquelas flaneladas, ou chinelos com meias. Mas ainda assim pareciam estar no clima.

No dia anterior, Renan ficou me enchendo de ideias sobre isso, dizendo que se eu não fosse de pijama ele nunca mais olharia na minha cara – estava empolgadíssimo por motivo nenhum. Na verdade, desconfio de que era só uma desculpa pra participar da bagunça, sabe, desestressar, essas coisas. Todo mundo parecia meio estourado, alguns no ponto de ebulição, então fazer umas coisas dessas deixava a galera menos propensa a surtar, eu acho.

Eu não tinha ido de pijamas porque tive que pegar ônibus – Carlos estava sendo um ótimo primo me deixando ir pra escola sem ele porque estava indo com um desses aplicativos de motoristas todos os dias. E ele queria que eu ajudasse financeiramente na corrida, coisa que não faria, então o acordo de irmos cada um do seu modo foi bem vindo para ambos.

Mesmo não tendo ido de pijamas, porém, eu tinha levado na mochila uma blusa e um short que  usava pra dormir. Quando entrei no colégio, então, percebi que teria de vestir a roupa correndo, antes que o Renan me visse e desse uma bronca. A sorte é que há um banheiro no primeiro piso que quase ninguém do ensino médio usa, e é o que eu mais gosto de frequentar.

No topo da escadaria, o terceiro andar estava em polvorosa. As meninas riam alto, os garotos corriam de um lado pro outro, alguns montinhos sentados no chão jogando cartas, outras pessoas se amassando umas nas outras, tirando sarro das vestimentas... Toda essa algazarra.

Na minha sala, a primeira visão que tive foi, sentadas sobre a mesa do professor, da Natália e da Isadora rodeadas por meninos, meu digníssimo primo incluso. As duas usavam uma camisola curtíssima e carregavam bichinhos de pelúcia debaixo do braço, rindo dos comentários provocativos que faziam. Suspirei e me virei para guardar minhas coisas na minha carteira... Foi então que vi o William sentado de pernas cruzadas na própria cadeira, mexendo no celular. Ele estava sozinho, vestia um moletom azul, um short, e estava sem os sapatos.

No minuto que levei para guardar meu material, Luiz Eduardo chegou irrompendo pela porta. Eu o encarei, no susto. Seu rosto estava extremamente vermelho, seus olhos vacilaram entre os meus e os do William, mas ele, obviamente, se focou neste último. Os dois se cumprimentaram com um beijo na bochecha que fez meu coração saltar um batimento dolorido. Luiz estava vestindo pijamas de verdade, calça e blusa combinando, meias claras, um All Star branco, como se tivesse pulado da cama, vestido o calçado e ido pra escola...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora