Dezembro I

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O resto de Novembro passa num piscar de olhos, mesmo que eu esteja praticamente morando na escola e na casa do Renan. A mãe e o irmão dele, aliás, obviamente questionaram nosso relacionamento, ainda mais depois do Rogério ter escutado Renan me apresentar como namorado ao pai dos dois. Ele me perguntou se poderia confirmar, mesmo já tendo conversado sobre isso.

— É oficial então? — acho que ele só precisava ouvir da minha boca mais uma vez, e mais uma, e outra, e quantas vezes fosse necessário.

— É. Oficial.

Ele ri toda vez que me chama de "namorado", me deixando um pouco sem graça, mas sei o quanto a nomenclatura nos deixa seguros e contentes, então relevo essa parte.

A escola inteira já sabe. Houve muito cochicho na semana depois da Feira de Ciências, muita gente ficou especulando coisas como desde quando e como o Renan "virou gay" de uma hora pra outra — foram exatamente essas palavras que a gente ouviu de algumas bocas. Por sorte, não precisávamos dar explicações nenhuma, principalmente porque alguns dos nossos colegas estavam por perto para se ocuparem disso.

Preciso destacar o quanto a Mariana tem nos apoiado abertamente. Digo, não acredito realmente que ela simplesmente deixou de gostar do Renan tão rápido, mas a impressão que tenho é que ela estendeu esse gostar a mim... Não com a mesma intensidade, ou objetivo, mas com o mesmo carinho. Isso faz sentido? Ela sempre rebate comentários na minha sala, e o Renan me diz que a Karina e a Juliana fazem o mesmo na sua.

A maior parte da aversão que sentimos no colégio vem, como já esperávamos, dos garotos do time de futebol, em especial os mais novos e que andam agora com meu primo. Felipe e Caíque não se importam — parece que não faz muita diferença na vida deles, o que não deveria fazer na de ninguém, na verdade, né? O legal é ver que eles enxergaram isso sem que ninguém precisasse dizer nada.

De vez em quando, porém, eu vejo o Luiz e o William juntos nos corredores e percebo que eles abriram muito as portas para que algo assim pudesse acontecer. Para que eu e o Renan também possamos andar de mãos dadas sem (muito) medo.

Às vezes também sinto vergonha de não ter tido coragem de estar do lado do Luiz pra isso, mas sei que não posso fazer mais nada, só me esforçar pra não deixar acontecer de novo e magoar alguém sem querer.

É basicamente uma fase de adaptação, o final de Novembro. Recebemos as notas finais do bimestre, já sabemos quem terá que fazer as recuperações finais e comemoramos quando o Renan descobre que não precisará nem de exercícios extras para fechar o ano. É sério, ele paga o almoço de todo mundo numa sexta-feira depois de receber a notícia!

E me lembra de que, como parte da minha promessa, eu terei que ir à festa de formatura com ela quando ela acontecer – e a comissão organizou para que seja em Janeiro do próximo ano, depois que toda a confusão de vestibulares e ENEM e festas de fim de ano passarem. Ou seja, tenho pouco mais de um mês para me acostumar com a ideia de que vou dançar com ele na festa do colégio...

Enfim. Estamos oficialmente liberados de comparecer à escola quando Dezembro entra no calendário. Mesmo assim, me obrigo a levantar cedo, pegar ônibus e ir todos os dias, porque não quero ficar em casa. É claro que o Renan se sacrifica e vai comigo — e eu sei que é um sacrifício porque ele vai ao colégio por obrigação, e diz que agora vai só pra me encontrar, apesar de ainda termos que assistir "aula" e nos vermos só no intervalo.

É durante uma dessas aulas que, com a sala praticamente vazia, a inspetora bate à porta e manda me chamar. Desconfiado, desço com ela até o primeiro andar pois aparentemente há um telefonema me esperando na secretaria. Ela diz isso já na metade das escadas e me deixa um pouco nervoso, porque ninguém nunca me ligou na escola. E ainda mais agora, que praticamente zero pessoas fora dele estão de fato falando comigo...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora