Julho III

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O sábado da Festa Junina parecia interminável.

Depois do ocorrido com o Joel, Renan o levou até a mesa dos pais para descansar. Ele estava abalado, mas disse que se sentia mil vezes melhor por ter colocado pra fora tudo o que pensava. Nós não sabíamos dos detalhes da sua saúde, física e mental, mas deu pra ter uma ideia de como as coisas haviam ficado depois que ele entrara em coma no ano anterior. Deixamos que ele tentasse relevar a situação naquela hora, porém, com a certeza de que poderíamos conversar sobre esses pontos importantes mais tarde.

— Valeu, velho. — ele agradeceu o Renan e se virou pra nós dois, já sentado na mesa com os pais e batendo o punho no lado esquerdo do peito. — Cês dois tão aqui.

Renan sorriu.

— A gente sabe. Relaxa, gordinho.

Joel subiu o dedo do meio pra ele, também sorrindo, e era nossa deixa para sair de perto.

— Vou procurar meu pai — Renan me disse enquanto andávamos entre as mesas na quadra descoberta. Levantei as sobrancelhas e ele revirou os olhos. — É, ele veio. Disse que quer que eu passe o fim de semana com ele, sei lá pra quê. E é bom que não tenha trago aquele embuste da "namorada" para a minha escola de novo.

— E você vai? Passar o resto do fim de semana com seu pai? — questionei, curioso. Renan subiu os ombros.

— Não sei. Não tô a fim, mas minha mãe também insistiu. Parece que ele vai viajar o resto do mês e tal, e daí não vai estar aqui no meu aniversário, então sei lá, acho que quer compensar agora. — ele bufou, cínico. — Compensar por ter ficado os seis meses passados só trocando mensagens no whatsapp perguntando como estava indo no colégio ou se a mesada era o suficiente.

— Pelo menos agora ele quer fazer isso pessoalmente... — também levantei os ombros e o Renan forçou a expressão de impaciência na minha direção.

— Eu me jogo do carro se a primeira pergunta que ele me fizer for sobre a escola. — ele fez uma pausa desnecessária e abaixou a voz um pouco. — Mesmo porque a resposta não vai ser lá muito satisfatória...

— Renan! — paramos entre duas mesas vazias. Ele se escorou numa das cadeiras e revirou os olhos na minha direção. — Não me diga que você pegou recuperação no meio do ano? De novo?!

— Tá, então não digo.

Arqueei as sobrancelhas, me sentindo ultrajado. Eu tinha me esforçado ao máximo nas últimas semanas para me safar da recuperação, e o boletim do Renan não estava tão ruim que não pudesse ser consertado. Mas ele não tinha pedido ajuda alguma, ou sequer comentado o fato, então eu... Egoisticamente me preocupei só comigo, é claro.

Um primor de amigo esse que você é, Daniel Henrique.

Fiquei realmente sem palavras, porque isso significava que ele não teria férias direito, e no ano anterior ele já tinha pego recuperação, e não viajara, e não aproveitara nada...

— Bem, saberemos semana que vem. — ele concluiu a questão, desviando nosso pensamento para outra coisa em seguida: — E aí? Seus pais estão aqui, né? Onde?

Balancei a cabeça, ignorando a mudança brusca de assunto.

— Não sei, vou procurar também...

Ele assentiu, apertou meu braço de leve e disse que nos encontraríamos depois, me deixando sozinho na quadra. Não demorei muito para achar a mesa dos meus parentes — principalmente porque eles tinham juntado três delas. Havia uma dezena de cadeiras e outra infinidade de latinhas de cerveja ao redor. Meus tios e meu pai estavam rindo de algo, gargalhando, a voz no último volume, ultrapassando a mixagem de som que o DJ fazia alguns metros dali.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora