Agosto VIII

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Não podíamos ficar perambulando pelas ruas porque, se nos vissem de uniforme, ligariam para o colégio avisando. Já vimos acontecer, então era melhor não arriscar. Estávamos ambos de moletom por cima da blusa, mas mesmo assim descemos algumas ruas no interior do bairro até acharmos uma galeria aberta, mas não muito movimentada. Havia banquinhos de madeira no meio dos corredores e ocupamos um deles, em frente a duas lojas que ainda estavam fechadas.

O potinho de sorvete não se encontrava nem na metade quando o Renan se sentou, uma perna de cada lado do banco, a mochila entre nós dois. Acho que ele estava se demorando de propósito para não ter que ficar olhando para a minha cara, esperando que eu dissesse alguma coisa.

Respirei fundo. Eu quem tinha chamado, eu teria que começar.

— Eu vou precisar falar do Otávio. — foi como iniciei. Ele parou de lamber a pazinha de sorvete e me encarou com certa impaciência. — Tudo bem?

Renan subiu os ombros e voltou a se concentrar no potinho. Revirei os olhos e suspirei, aquele sendo o gatilho pra que eu o ignorasse e colocasse tudo pra fora de uma vez. Acho que sairia mais fácil assim mesmo.

Eu nunca tinha feito aquilo antes, falar só sobre mim, falar sobre o que eu não queria falar. Falar, falar.

Mas eu falei. Contei desde o começo porque achava que tinha começado a me envolver com os aplicativos de pegação no ano anterior. Era uma forma de escapismo, eu concluí. Eu não queria encarar a merda da nossa realidade depois do acidente com o Joel. Fiquei tão impactado com a ideia de que nossa vida é tão frágil que resolvi brincar com ela o máximo que eu podia.

Tirando o beijo ridículo com o Luiz, dois anos antes, e o que eu e o Renan havíamos trocado numa boate durante a viagem, eu nunca tinha ficado com alguém de verdade — e também nunca tinha contado isso pra ninguém. A possibilidade de que minha vida pudesse acabar facilmente como a do Joel me deixou em pânico. Eu tinha que vive-la, eu tinha que experimentá-la, saber das coisas, conhecer, tudo ao mesmo tempo. A maneira mais rápida que encontrei foi a dos aplicativos.

Havia ainda uma justificativa: a probabilidade de encontrar alguém conhecido naquele meio era quase nula, eu pensava, então podia "me jogar" sem medo. E outra, na minha cabeça era tudo muito simples: eu não precisava dar explicações a ninguém, nem a mim mesmo. Se eu estivesse a fim, não pensava duas vezes e fazia.

A diferença entre eu e o Renan era que ele pelo menos cogitava a hipótese de estar machucando alguém. Eu não percebia que estava machucando nem a mim mesmo.

Com a virada do ano, a distância do Sander e outros detalhes, notei que minha saídas não estavam me "satisfazendo" mais — isso quer dizer que elas não me acrescentavam nada, não eram experiências boas, não me proporcionavam qualquer conhecimento. O que eu queria fazer e experimentar, acho que já tinha acontecido. E nada me motivava a continuar experimentando, se é que me entende.

Nada tinha sentimento, e eu  tinha passado tempo demais do lado dos dois, do Sander e do Renan, pra entender que aquilo fazia toda a diferença...

A "exclusividade" que dei ao Otávio veio justamente por conta disso: com ele, existia pelo menos aquela fantasia inalcançável. Eu sentia que estava brincando de ser outra pessoa. Quando eu teria acesso a um apartamento daqueles? Um quarto, café da manhã, mordomias como as que ele me dava? A balança começou a pesar para esse lado, e não para o lado do sexo. Eu queria me encontrar com ele, mas só pelo prazer de dormir na cama espaçosa, de não dar explicações a ninguém e de ser quem eu queria: livre e bem indiscutivelmente gay.

Eu não era nenhuma dessas coisas quando estava fora do ambiente online. Na escola, por exemplo, eu era o CDF certinho, primo do capitão do time de futebol. E hétero.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora