Dezembro VII

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O tempo vai passando como tem que passar. O relógio não para só porque a gente quer, né? E, na maior parte do tempo, eu não noto essa passagem. Não checo calendário, meu celular fica desligado quase que o tempo todo, e eu me ocupo em só... viver um dia de cada vez.

Já é quase Natal quando percebo que estou praticamente morando na casa do Renan. A mãe dele sempre coloca um prato pra mim na mesa, pega minhas roupas pra mandar pra lavar, a empregada faz pães de queijo pra mim, e os priminhos do meu namorado me chamam de "primo" também.

Eu não sei quando isso aconteceu realmente.

Mas assim que noto, meu cérebro dá aquele click e eu surto um pouco: eu não posso morar no apartamento do Renan. Não, simplesmente não posso.

Mas também não quero voltar pra "casa".

Nessas semanas todas em que tenho dormido fora, meus pais sequer me mandaram uma mensagem no celular, ou ligaram. Nada. Mesmo eu tendo deixado o telefone até do apartamento do Renan com a minha mãe, caso ela precisasse de algo. Acho que ela nunca precisou.

Foi aí que comecei a não me preocupar mais com a bateria do telefone estar sempre carregada, porque não tinha necessidade — quem queria, de fato, falar comigo, me encontrava através do Renan.

E foi aí também que notei que não posso mais voltar para aquele lugar. Não é mais minha casa.

Essa constatação é só mais um empurrão pra ajudar a virar aquela página do livro da minha vida e seguir em frente.

Num dos raros momentos em que meu celular está funcionando, recebo uma ligação de um número desconhecido, porém. Atendo quando Renan está no banho e vejo que é da secretaria de uma faculdade.... A que eu passei no vestibular, no interior, me informando que as matrículas começarão logo depois do Ano Novo e avisando que me enviou a lista dos documentos por e-mail.

Faculdade. Eu tinha me esquecido completamente desse detalhe.

Mantive a ligação "em segredo" e evitei abrir meu e-mail pra isso não me deixar ainda mais ansioso. Renan e eu parecíamos ter assinado um acordo de não conversar sobre isso desde que os resultados dos vestibulares haviam saído, o que até me fez esquecer que o ensino médio havia mesmo acabado... Mas não dava para ignorar pra sempre.

No fim de semana anterior ao Natal, a família do Renan se reuniu toda no apartamento dele — tios, parentes, primos, agregados. Todo mundo, menos o pai dele, que não era bem-vindo nem depois de já terem um ano de separação. À essa altura, eu já estava usando as roupas do Renan inclusive, porque as minhas eram poucas e nem de longe serviam para a ocasião. Apesar dele ser um pouco maior que eu, ninguém reparava que a camisa polo ficava mais folgada, ou que a calça de marca dele escorregava na minha cintura.

Naquele dia, porém, não eram só as roupas que me faziam sentir outra pessoa, já que eu jamais vestiria coisas do tipo simplesmente por não ter dinheiro pra compra-las. Eu fiquei sentado no sofá, no cantinho da mesa durante o jantar, no chão com os priminhos e distante das conversas e olhares... Para observar e perceber o quanto nossas famílias eram iguais, mas ao mesmo tempo diferentes como água e vinho.

Mais importante que isso, contudo, era a certeza de que eu não pertencia.

Tentei ao máximo não demonstrar nenhuma insatisfação ou soar mal-agradecido nem nada, mas disse que estava com muita dor de cabeça e que queria dormir cedo, o que me poupou de ficar na mesa de jantar bebendo vinho com o Rogério e o tio mais novo do Renan, os dois já mais pra lá do que pra cá.

Renan me seguiu para o quarto e, fechando a porta atrás de mim, ele suspira e solta:

— Agora você pode me dizer o que realmente tá se passando na sua cabeça?

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora