Maio I

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Os trabalhos escolares são, quase sempre, uma maneira muito sádica de um professor colocar a sala toda em estresse conjunto absoluto. Eles se divertem, eu imagino, porque só têm que ficar observando o circo pegar fogo.

Esses trabalhos começam a chegar em peso no fim de Abril e desembocam todos nas primeiras semanas de Maio. Para piorar a situação, as provas mais pesadas também aconteceram na mesma época, mas para essas só me restava torcer que meus esforços das últimas semanas valessem a pena.

A maioria dos professores deixa livre a escolha dos grupos, o que quer dizer que as panelinhas se formam automaticamente — e que eu fico meio perdido, sem saber se devo me juntar a elas, ou sem saber que critério utilizar na hora de escolher com quem devo me relacionar, por assim dizer.

Carlos, Caíque, Natália e Isadora são ligados entre si por uma espécie de ímã, é claro, e são o primeiro grupo a se formar. Há vaga ali, mas não sei se quero passar por isso. Do lado oposto da sala, Maria Eduarda, Luiz Eduardo, William, Camila e Diego formam outro conjunto inseparável. O resto da sala se agrupa por minúscula afinidade ou proximidade espacial mesmo...

Preciso ser rápido na escolha, mas não sou rápido o bastante para evitar que a Natália venha até minha carteira já contando que estarei no seu grupo nas matérias que ela mais precisa de pontos, eu percebo.

— Vem, Dani, vamos combinar de encontrar pra fazer o trabalho de química e biologia. Diz a Isa que dá pra juntar os dois, ela até perguntou pras professoras!

Não nego a minha inclusão, mas fico um pouco preocupado porque sei que terei de me esforçar muito com eles — as meninas não fazem ideia do assunto. Meu primo e o Caíque não dão a mínima para as tarefas enquanto debatem a melhor escalação de um time que não sei qual é porque não presto atenção. Ou seja, já sei que terei de carregar todo mundo nas costas se quiser ter pelo menos uma nota decente.

Não é novidade; o problema, porém, é que também estou atrasado com a matéria e me sinto inseguro como nunca me senti em relação a isso. Minha cabeça está em outro lugar, em outra época. Fico remoendo o fim de semana do meu pai jogando cartas em looping eterno nas minhas lembranças...

Prevejo um desastre iminente e não sei como evita-lo. Só aceita-lo, assim como aceito o que a Natália e a Isadora dizem, sobre nos encontrarmos depois da aula para fazermos o trabalho.

Durante os intervalos naquela semana, fico tentando reler as anotações que automaticamente faço durante as aulas, mas sem conseguir absorver 1% do que está escrito. Na hora do almoço, vou rapidamente para a biblioteca, evitando encontrar qualquer pessoa no caminho — o Renan, por exemplo. Finjo que estudo, finjo que não estou com fome e volto para as aulas da tarde antes do sinal bater.

Consigo manter essa rotina fajuta pela primeira semana quase que inteira. Fico depois da aula na quinta-feira com o pessoal para fazermos os trabalhos, mas nada sai muito bem. Fazemos uma apresentação corrida, Carlos e Caíque resolvem que vão ficar por conta dela e as meninas basicamente nos alimentam com salgadinhos e bajulam meu primo. Sinto que não é o suficiente, claro, mas também não tenho motivação para insistir, então deixo tudo como está e vou para casa no meio das minhas paranoias.

Na primeira sexta-feira de Maio temos que ir vestindo roupas indianas. Até então eu não tinha nem comentado direito em casa sobre esses dias, mas deixo escapar quando pergunto se minha mãe tem algum lenço para colocar na cabeça.

— Lenço para a cabeça? É claro que tenho, meu filho! Tenho aos montes no guarda-roupa, é só escolher... — ela se diverte um pouco com a situação. — Mas esse uniforme não parece em nada com alguma coisa da Índia, né! Lembra da época daquela novela? Na escola vocês até fizeram um teatrinho com ela, tinha roupa e tudo! Acho que ainda tenho guardada em algum lugar...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora