Julho VI

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A noite estava gelada. Acho que o frio superou todas as expectativas dos termômetros e dos meteorologistas, mas não das meninas na boate. Todas usavam botas longuíssimas e cachecol, ensaiando para um desfile de moda imaginário na porta da boate. Fiquei observando até o Renan chegar, vinte minutos depois do horário combinado, como de praxe. Não enrolamos muito do lado de fora e entramos para um ambiente super abafado e turvo por causa da fumaça de gelo seco.

Eu odiava gelo seco!

Aquela noite prometia.

Carlos Chagas, vulgo meu primo, estava numa área dois degraus acima da pista de dança. Duas mesas grandes tinham sido reservadas em seu nome. Quando Renan e eu os avistamos, mais da metade das cadeiras já estava sendo ocupada. De um lado, Natália e Isadora, a irmã da Natália, outras meninas que eu desconhecia, todas parecendo bem mais velhas que o resto dos garotos da mesa. Caíque, Gustavo, Felipe, Ítalo, João Pedro... Não fazia ideia de como os mais novos haviam entrado na casa noturna, muito menos de como conseguiram os copos que tomavam e que sem sombra de dúvida não eram de refrigerante.

Ítalo estava de pé ao lado da cadeira em que meu primo se sentava, bem no centro, no meio das duas mesas. A irmã da Natália estava ao seu lado esquerdo e ele falava algo em seu ouvido quando nos aproximamos. A garota não parecia muito interessada, porém, mas a irmã mais nova era só cochicho com a amiga.

Tínhamos combinado que chegaríamos, os cumprimentaríamos e depois, se a oportunidade permitisse, ficaríamos longe deles. Então o Renan puxou o bonde, trocou aperto de mãos com todos os meninos do time e foi em direção ao aniversariante. Eu fiz o mesmo; nós dois evitamos qualquer conversa com o Felipe, o Gustavo e o Caíque, que pareceram estar de acordo com isso também. Desde a Festa Junina nós não nos encontrávamos e o sentimento entre a gente, palpável pra quem quisesse prestar atenção, era muito mais de depreciação que qualquer outra coisa.

Quando foi minha vez de cumprimentar meu primo, Carlos só esticou o braço e nós apertamos a mão, sem nem nos olharmos cara a cara. Parti com o Renan cumprimentar as meninas que, apesar de não estarem falando direito comigo na escola, me deram beijinhos nas bochechas como se nada estivesse fora do lugar. As outras garotas eram colegas da Nayara, a irmã mais velha da Natália, e nos foram brevemente apresentadas.

Por algum motivo que desconheço, o Júlio, um dos reservas do segundo ano, começou a puxar um papo muito empolgado com o Renan. Os dois têm a mesma posição no campo, atacantes, e eu pesquei que ele tinha topado com um jogador famoso no shopping um dia desses. Esse jogador também é um atacante que os dois gostam, e aí o papo deslanchou.

Não quis ser estraga prazeres mais uma vez, então fiquei no meu cantinho, observando a paisagem de pessoas suadas e descabeladas na pista de dança. Eu também comecei a suar depois de certo ponto, porque o ar condicionado estava fraco devido ao clima já frio. E também porque a situação me incomodava ao ponto de pensar em escapar com um copo de vodca.

Renan de vez em quando segurava meu braço, me puxava pra mais perto, tentava me colocar no meio da conversa, que àquela altura eles já tinham incorporado algumas outras pessoas ao redor, e as meninas também...

Tentei me manter firme à minha resolução: nada de álcool.

Eu não precisava dele. Nem eu, nem o Renan, que também se manteve "limpo" pra me acompanhar nessa.

E daí que fui notando a aproximação de uma das amigas da Nayara no grupinho que tinha se formado à nossa volta: eu, Renan, Júlio, Cristiano (outro dos nossos reservas) e um cara que começou a conversar com a gente do nada, e que eu não fazia ideia de quem era. A garota em questão era bastante bonita e não chamava atenção pela maquiagem pesada, mas sim pela simplicidade. Ao lado do Renan, ela debatia com ele sobre escalação de time, sobre faltas mal cobradas, pênaltis perdidos e lances de jogos recentes que nem eu estava por dentro.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora