Maio III

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Renan Souza: tô indo no shopping com meu irmão pra comprar algo pro dia das mães, quer ir junto?

(domingo, 10:31)

Daniel Henrique: Não vai dar. Estou indo pra casa da minha avó. É longe.

(domingo, 10:32)

— Não é pra ficar com a cara grudada nesse celular não, ouviu?? — a voz do meu pai retumbou no carro fechado. — Senão vou confiscar esse trambolho...

Suspirei, enfiando o telefone no bolso do short e remexendo na minha pulseira no braço esquerdo. O banco de trás estava empoeirado e o couro, todo quebrado pelo ressecamento do tempo... Mas o do motorista estava impecável. Do carona, minha mãe equilibrava uma travessa de pavê enquanto ajeitava os cabelos curtos que tinha acabado de moldar com o secador.

Meu pai ligou o rádio e aumentou o volume quando achou uma estação de sertanejo. Ele não estava com tanto mau humor, o que já era pedir demais, eu acho. Sabia que qualquer coisinha que eu fizesse poderia mudar isso, claro, então permaneci mudo e quieto, como sempre.

Minha avó mora numa espécie de chácara numa cidade vizinha, mas não é fora de mão — levamos cerca de uma hora pra chegar lá, o que é mais perto do que ir da minha casa ao centro da cidade, por exemplo. Por ser Dia das Mães, a casa está lotada, mas, além da família também vejo vizinhos e parentes de amigos, próximos ou não. Gente que às vezes encontro por aí, mas não faço questão de guardar o nome.

Minha mãe sabe o nome, o parentesco e lembra da última conversa que teve com todo mundo, então só vou atrás dela, no embalo dos cumprimentos, para não parecer rude às vistas do meu pai. Ele vai direto para os fundos, se sentar na área da churrasqueira com meus tios, tomar uma cerveja e jogar conversa fora. Sequer dá parabéns para a mãe dele...

Passo o dia sentado ao lado da minha avó e da minha mãe, sem participar das interações, mas estando presente. Dona Ermelinda é uma senhora velhinha de 81 anos, muito cabeça dura, anda de bengala, só usa vestidos floridos e sandálias de couro, trança o cabelo comprido e branquinho, e odeia que a contradigam. Ela tem as opiniões fortes, como minha mãe gosta de contar, então é bom que eu fique de bico fechado porque raramente concordamos... Mas é Dia das Mães, minhas tias fazem tudo o que ela quer, e minha mãe é só elogios. Sou o único neto que fica por perto, porque Carlos vira e mexe entra numa discussão sobre futebol com os mais velhos, longe dali. Isso é bom porque evitamos a convivência, claro.

Os filhos do tio Gilson estão na piscina, não ligam muito pra vovó porque, bem, acho que ele desde o começo deixou claro que não era filho "de verdade" dela. Não sei, não consigo entender, porque a verdade é que, sem a vovó, tio Gilson simplesmente não existiria. Ele só vê os laços de sangue, porém, que são inexistentes. Mas, bem, fico na minha zona de conforto, não faço nem questão de sair dela.

Sem comentários desnecessários, sem celular, sem polêmicas. Pelo menos durante boa parte do dia.

De tardinha, minhas tias aparecem com um presente de grego: uma cadeira de rodas especial, daquelas de banheiro. E também resolvem testá-la e dar banho na vovó, que obviamente se recusa de todas as formas. O presente é inesperado, mas parece que foi de comum acordo de todos os presentes. Meu tio Wagner diz que já tava passando da hora da "veia ter uma cadeira daquelas e alguém pra cuidar dela", que aparentemente também vai existir nas próximas semanas. Não sei se é um pretexto para deixarem ela de lado ou se realmente estão preocupados com sua saúde, porque vovó mora sozinha numa casa velha no interior... Qualquer problema que tiver será difícil de ser tratado e comunicado com o resto da família.

Minha mãe fala mansinho pra convencê-la a aceitar tudo, mas minha tia Kênia é quem consegue arrastá-la pro banheiro e, enquanto a mulher do tio Gilson ajuda dona Ermelinda a tirar a roupa e sentar na cadeira de rodas, a mãe do Carlos se vira pra mim e pede para que eu arrume as coisas no quarto dela. Não nego, me mantenho ocupado.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora