Julho VII

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O aniversário do Renan cairia na sexta, dia 26. Antes disso, porém, o foco ainda estava nos estudos. Os trabalhos da recuperação eram enormes e, enquanto eu o ajudava, percebia o quanto o meu ritmo estava defasado. Minha mente parecia mais seleta, menos aberta a receber informações que eu já considerava mais inúteis, digamos, pro futuro que eu queria. Não estava nos meus planos incluir biologia, química e física nele, então eu também tive que me forçar a absorver a matéria pela milésima vez. Era mesmo um milagre que eu não tivesse perdido média naquele bimestre ou ficado de recuperação também...

Na terça-feira anterior, o irmão do Renan foi busca-lo na escola. Estávamos indo de manhã, almoçando por lá e ficando até o meio da tarde quase todos os dias. Rogério saíra mais cedo do trabalho e ficara esperando no portão enquanto o irmão conversava com o professor de física sobre as notas de recuperação e tal. Como isso meio que não me dizia respeito, eu só esperei nas escadas para me despedir.

Então o Rogério se aproximou de mim, me cumprimentou e se sentou nos degraus ao meu lado. Seu carro estava parado bem em frente ao portão, um local proibido, diga-se de passagem. Ele não parecia ligar muito.

Só por aquele detalhe, fiquei imaginando o quanto ele e o Renan eram parecidos.

— Vamos fazer um jantar na sexta — Rogério disse, contemplando as rachaduras no granito dos degraus. — Pro aniversário do Renan.

Não soube entender o que a fala indicava, então fiquei só balançando a cabeça. Ele se virou pra mim em seguida:

— Você deveria ir. Acho que ele ia gostar... — como continuei em silêncio, Rogério levantou as sobrancelhas. — Vão ser só os parentes chatos como de costume, se tiver alguém que ele realmente goste aí sim vai ser uma comemoração de aniversário.

Sorri, um pouco sem graça.

— Obrigado pelo convite, mas acho que vou ter que deixar pra próxima...

Não tive muito que me explicar — contar que sair de noite sem a permissão dos meus pais era um saco, contar que pedir a permissão era um saco ainda maior — porque o Rogério só assentiu. Talvez ele não esperasse mesmo que eu aceitasse, sei lá.

Porém, o irmão mais velho do Renan ainda insistiu em outra coisa:

— Se não quiser ir lá em casa, no sábado vou levar ele na balada mais cara da cidade — ele deu uma piscadinha e riu com o canto da boca do jeitinho que o Renan fazia. — Consegui uns convites, um camarote pra gente, aí sim vai ser uma festa. Tem convite pra ti também, se tiver a fim.

Não tive tempo de pensar no que eu queria — ou deveria — responder, porque o próprio Renan apareceu, descendo os degraus de dois em dois. Rogério só teve tempo de cochichar dizendo que era uma surpresa antes que o irmão pulasse na nossa frente. Nos despedimos e eles ainda fizeram o favor de me dar carona até a pracinha, pra que eu pudesse pegar o ônibus de volta.

Renan e eu não nos falamos muito depois da festa do Carlos. Aliás, conversávamos sobre o que precisava ser conversado: matéria, escola, vestibular, férias... Nada muito além disso. Parecia que estávamos tomando cuidado para não cair na tentação de fazer piadas com duplo sentido — e isso me fez perceber o quanto o Renan usava delas, porque sua ausência tornava nossas conversas bem menos extensas, digamos.

Os olhares acabavam dizendo muito mais.

***

Na véspera do seu aniversário, nos encontramos na escola depois do almoço. Peguei o resto das minhas economias e saí de casa com a intenção de passar em algum lugar para comprar um presente, mas descobri que não fazia ideia do que poderia dar ao Renan. Eu tinha prometido que seria a sua recuperação, mas isso não deveria ser um presente de aniversário, né? Lembrei dos fones de ouvido também, mas ao mesmo tempo sabia que ele tinha pedido ao Sander a mesma coisa...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora