Dezembro IV

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Apesar de parecer que estou lidando com tudo isso com tranquilidade, assim que me vê, Renan percebe na hora que alguma coisa aconteceu. Não sei como, não me pergunte. Digo que estou bem, que só preciso assimilar todas as mudanças repentinas da minha vida da noite pro dia, e ele revira os olhos, entrando no drama.

Apesar de passarmos a sexta ainda em casa, no conforto da sua cama, e sem as crianças dessa vez ("Foram pro shopping assistir um filme porque não aguentavam mais ficar trancados aqui"), parecia que o ocorrido com minha mãe mais cedo era um prelúdio pro que estava prestes a acontecer naquele fim de semana. E eu juro que senti isso em algum momento entre as risadas dos comentários aleatórios que fazíamos sobre os vídeos que estávamos vendo no celular...

Celular este que quase caiu da cama quando a gente começou a meio que rolar em cima dela, se é que me entende.

Mas daí a vibração constante em cima do piso de madeira nos incomodou. Não eram notificações de vídeo, era alguma coisa mais urgente.

— Não é ligação... — Renan murmurou, ainda me beijando, a mão por debaixo da minha blusa.

O celular continuou vibrando.

— Mas deve ser algo muito urgente... — eu devolvi o beijo, sentindo as mãos dele em mim e sua pele debaixo das minhas digitais. Quando foi que ele tirou a camiseta? Sei lá... só sei que meus neurônios não conseguiam se concentrar em nada.

Renan bufou alto, nervoso, e finalmente resolveu levantar pra pegar o telefone, que já tinha andado meio metro no chão por causa das vibrações.

— Mas será que eu não posso nem namorar em paz?? — os cabelos mais compridos que o normal, sem o gelzinho de sempre, apontavam para todos os lados. Achei graça e me sentei com ele na cama, enquanto remexia no aparelho barulhento.

Encostei meu rosto em seu ombro, a pele quente junto da minha... A sensação era a melhor de todas.

— Opa... — ouvi Renan murmurar. — Temos novidades.

Ele vira o celular pra mim, se ajeitando na cama pra passar o braço pelo meu ombro, me aconchegando no peito pra ler comigo as mensagens que vinham chegando.

A quantidade era absurda.

— O que é isso? Não tô entendendo nada...

— Parece que fizeram um grupo novo e me colocaram nele. — Renan franze a testa e checa o nome, a foto e os participantes do grupo de conversas no aplicativo. — E você também. Cadê seu telefone?

Lembrei que estava sem bateria no meio das minhas roupas na mochila. Não importava muito, porque eu só o usava pra falar com o Renan, no máximo com o Sander ou com o Joel.

O nome do grupo era "festa surpresa no parque". Quase todo mundo do (ex?) time de futebol estava lá, acrescido dos gêmeos e de algumas garotas, como a Natália e a Isadora.

Rolamos as mensagens rapidamente pra entender o contexto. Fui assimilando bem devagar, até o Renan soltar sua constatação em voz alta para que minha ficha caísse também.

— Caramba, o João Vítor tá voltando hoje! Já se passou um ano?! Nossa!

Foi só tocar no nome do JV que eu percebi que nem me lembrava dele.

Eu não pensei nele nem em um momento durante todas as coisas que aconteceram naquele ano conturbado.

E isso porque, no ano anterior, eu cheguei a chama-lo de "melhor amigo".

— Festa surpresa no parque? — murmurei.

— Parque de diversões. Aquele itinerante, que tá no estacionamento de um shopping aqui, sabe? Eu acho que comentei com você que os meus priminhos queriam ir, mas quase não tem brinquedo pra criança...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora