Dezembro IX

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— Tem certeza de que vocês não querem ir pro Reveillon na boate? — Rogério pergunta, pela centésima vez. Juro. — No Iate só tem velho!

Renan revira os olhos, perdendo a paciência, e o Rogs sai bufando do quarto.

É 31 de Dezembro, são oito e meia da noite. Eu já estou arrumado — calça jeans de sempre, mas com uma blusa social branca bem clichê, as mangas enroladas até o cotovelo, o primeiro botão aperto. Renan disse que estou "sexy sem ser vulgar", o que me arrancou uma gargalhada. E ele está brigando com a breguice de ir de jaqueta e regata branca por baixo ("porque depois da meia noite será que dá pra pular na lagoa do Iate? Deve dar, né?") ou de social completo ("seus pais vão estar lá... aliás, sua família toda deve ir, inclusive seu priminho que não deve ser nomeado, e eu quero passar a impressão de que estou muito bem, obrigado").

Ele fica mais meia hora nessa luta e decide mesclar. Coloca um jeans igual ao meu e uma regata, mas usa um blazer social cor creme por cima, fechadinho, e se entope de perfume. Está calor à beça e ele acha que vai suar e ficar fedendo na hora de cumprimentar meu pai — eu nem sei de onde ele tirou a ideia de que vamos ficar perto da minha "família", mas definitivamente não é o meu plano.

Em mais uma tentativa de nos tirar dessa loucura, Rogério aparece de novo no batente da porta e pergunta que horas vamos sair, completando que ele pode dar uma carona, porque só vai sair bem mais tarde.

— Então nós vamos agora! Porque eu não aguento mais escutar essa sua voz! — Renan explode e a gente resolve a situação assim mesmo.

***

O Iate Clube só tem gente velha.

Eu não imaginei que fosse concordar com o Rogério tão cedo, mas é a verdade, nua e crua.

A gente entra com os convites que minha mãe me deu e o cara da portaria diz que a mesa da reserva é no andar de cima do salão. Eu nem sabia que eles tinham reservado uma mesa, mas numa olhada silenciosa trocada com o Renan, ele entende que o salão é nosso lugar proibido da noite. Antes de chegar lá, no carro, eu expliquei sinceramente que não esperava ter contato com nenhum parente meu naquela noite e acho que ele entendeu.

— Não quero piorar as coisas se eu puder, sabe, evitar a fadiga.

— Como você quiser. — ele concordou.

Então nós não andamos de mãos dadas no meio do pessoal. Há muitas famílias, crianças correndo na parte gramada, alguns casais com taças de champanhe aqui e ali... E descobrimos que o "lugar dos jovens" é perto da lagoa, numa pista de dança improvisada em frente ao palco onde há um DJ e balões dourados no formato dos números que vão compor o próximo ano. A contagem regressiva também vai acontecer ali, já que a queima de fogos é na beira da água.

Não está muito cheio, acho que chegamos cedo demais (mesmo já sendo quase dez da noite), então Renan me puxa para pegar alguma coisa pra beber.

— Uma soda, uma água com gás, qualquer coisa...

— Qualquer coisa sem álcool? — ele dá de ombros e eu o cutuco, roçando meus dedos no dele. — Pode beber se quiser. Não precisa ficar se contendo por minha causa. Você já é maior de idade.

Ele revira os olhos.

— Não é isso. Não estou a fim de verdade. Só quero curtir a noite de boa.

Por mim qualquer coisa está ótimo, então eu o sigo para o salão de festas.

Tomamos cuidado para ficar longe do segundo andar, e o primeiro está tão cheio de filas para pegar bebidas e comida que acho meio impossível alguém nos achar ali na muvuca. Temos bastante tempo até a queima dos fogos, então enfrentamos as filas com bom humor até. Renan pega uma taça pra mim e outra pra ele, mesmo que a gente só vá enchê-las de refrigerante ruim. A sensação é engraçada e a gente fica observando as pessoas, comentando dos vestidos e topetes dos convidados, da decoração prateada do salão, e assim nem vemos o tempo passar.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora