Outubro V

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Quando você quer ficar com uma pessoa específica, o universo envia outras quinhentas pra te atentar e você ter que superar as tentações pra se dizer digno. Acho que é mais ou menos isso que está acontecendo comigo naquela varanda.

"Gostava?Não gosta mais? "    

Então eu sei que nós não vamos nos beijar, porque respondo sua pergunta:

— Não. Não daquele jeito. — meus ombros sobem sem querer e dou pelo menos dois passos para trás, nos afastando. — E você não vai querer fazer isso pra se arrepender depois.

Ele entende o que "isso" significa, é claro que entende.

— Você se arrependeria?

— Talvez. — engulo o nó na garganta. — Sim. Acho que sim.

Luiz parece um pouco atordoado com a minha resposta, mas assente e demora só um segundo para reagir de volta, se debruçando sobre a grade e aceitando minha decisão de manter o passado no passado.

Também não é como se estivesse esperando que dissesse qualquer outra coisa, aliás.

Ele ajeita sua fantasia, o cinto, os braceletes.

— Que bom, fico feliz em saber. — questiono porque não sei se ele está feliz em saber que eu realmente gostava dele, que eu já não gosto mais, ou por saber que eu me arrependeria. Ele dá de ombros. — Todas essas coisas.

Então ele me conta voluntariamente porque o William não está na festa: ele viajou com a família e, além disso, os dois estão definitivamente brigados. É com essas palavras que define. Tento não me fazer de curioso, mas é um pouco impossível. Entretanto, Luiz conta mais do que eu preciso saber, é verdade, e me sinto ao mesmo tempo aliviado por ter dado essa abertura, e muito grato pela confiança. Então eu acompanho seu relato, ora ou outra interrompendo com alguma pergunta que ele não se importa em responder.

Pelo que entendi, o motivo das brigas, que vêm acontecendo há um tempo, são muitas, mas as atuais tem a ver com tudo o que envolve nossas vidas adolescentes mesmo. William quer fazer faculdade, seguir os passos do pai e ser engenheiro. Até aí tudo bem, mas Luiz acrescenta que seu namorado quer ir para o interior, pra ficar um pouco longe da mãe, que parece paranoica com o relacionamento deles.

— Mas ela não sabe. Até hoje ela não sabe sobre a gente porque o William acha que ela não vai aceitar. — Luiz balança a cabeça de leve em negativa. — Mas o pai dele já sabe, o irmão sempre soube, e nenhum dos dois se opõe. Ele quer que a gente se mude pra longe pra não ter que lidar com isso, com contar pra ela de verdade, mas eu não vejo como me separar da minha mãe.

Não sei como aconselhá-lo, porque percebo que é isso que ele espera de mim naquele momento. Sinto que estou numa posição delicada; posso ao mesmo tempo estragar o namoro dos dois, ou fazê-los se unirem ainda mais.

Mais que isso, sinto que já estive nessa posição. Dois anos antes. Na Festa Junina.

Eu escolho o mesmo caminho que escolhi naquela ocasião quando digo:

— Mas você não precisa se separar de ninguém, muito menos das pessoas que você mais gosta. Você só precisa encontrar a melhor forma de achar um caminho em comum, e é claro que alguém vai ter que ceder um pouco. Você, ou ele ou sua mãe. Ou os três. Não é tão impossível assim, mas vocês precisam só sentar e conversar. Você só precisa dizer isso que acabou de me dizer, mas pra ele, pro William. — Luiz parece afetado pelo que digo, como se realmente não tivesse pensado naquela solução. Como eu o conheço bem demais até, sei que ele não pensou em simplesmente colocar as palavras certas pra fora. Ele ainda não consegue, eu vejo. Mas se precisa de um empurrão a mais, eu dou: — Nenhuma dessas brigas muda nada do que vocês sentem um pelo outro. Tenho certeza disso.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora