Junho IV

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Sábado era dia de simulado. Acordei forçando vômito para corroborar a mentira que eu ia inventar para não ir ao colégio. Funcionou. Minha mãe até disse que eu estava com febre, me mandou dormir o dia todo e me deu um remédio que quase ficou entalado na garganta, de tão grande. Desliguei meu celular, me enfiei debaixo das cobertas e sonhei que tinha sido enterrado por elas.

Eu não estava realmente passando mal, mas acho que meu psicológico comprou a ideia tão bem que, logo antes do almoço, acordei de novo com o corpo todo dolorido e a cabeça explodindo. Recusei a comida porque meu estômago não estava dos melhores mesmo, e voltei a hibernar. Naquela dimensão entre o acordado e o sonolento, ouvi o telefone tocar umas duas vezes, mas fora isso não houve som algum me incomodando o dia todo. Nem meu pai veio tirar qualquer satisfação...

Acabei emendando o sábado e o domingo, mas minha mãe insistiu que eu levantasse para comer, então assim o fiz. Minha cabeça estava ao mesmo tempo vazia e pesada. Vi meu pai em frente à TV, assistindo a um jogo qualquer, uma latinha de cerveja na mão e um pratinho com carne na mesinha de centro. Silencioso, quieto.

— Acho que você passou alguma doença pra ele também... — minha mãe brincou, me cutucando.

Não sabia se ria ou chorava, então só permaneci de boca fechada, quase que literalmente. Coloquei duas garfadas pra dentro e me dei por satisfeito. A senhora dona Neide não queria que eu ficasse para ajudar na limpeza da casa, então subi para o meu quarto novamente... Até que o telefone tocou quando passei pelo aparelho. Levei um susto tão grande que soltei uma exclamação bem sonora, digamos.

— Agora deu pra gritar feito cabrito, é? — meu pai reclamou. — Atende logo essa joça!

Da porta da cozinha, minha mãe secava um prato e indicou o telefone com as sobrancelhas. Suspirei. Eu não queria falar com ninguém...

— Alô?

Meu Deus do céu, mas que dificuldade é pra falar contigo, puta que pariu, Daniel! — a voz do outro lado me surpreendeu com a torrente de xingamentos. E também por estar ligando no telefone fixo. — O que aconteceu com seu celular? Aliás, o que aconteceu com você?!

Minha mãe continuava à porta, então eu tirei o telefone da orelha e apontei para o bocal:

— É pra mim. Vou subir com ele, depois trago de volta, tá?

Ela fez que sim com a cabeça e retornou à cozinha, então subi o resto das escadas e me tranquei no quarto, somente então recolocando o telefone na orelha. Até pensei que a linha tinha sido desconectada, mas ao ouvir minha respiração o outro lado se acalmou também.

Então. Me responde.

— Qual das perguntas?

Todas elas. A começar pela última... — Renan suspirou. — O que aconteceu com você, Dani?

Meu interior inteiro parecia ter sido espremido, comprimido, embolado em si mesmo. Minha garganta se fechou com aquele nó... Eu não queria colocar em palavras o que estava sentindo, não ainda, então só repliquei a mentira que contei pros meus pais.

—Sei lá. Uma virose, eu acho. Febre, dor de cabeça, essas coisas...

Não sei se ele caiu nessa, porque ficou uns bons dois minutos ponderando, suspirando, só esperando eu desfazer a conversa, mas me mantive o mais estável que consegui. Por fim, Renan murmurou um "tudo bem" e perguntou se eu já estava melhor, só para emendar o verdadeiro assunto da conversa:

Tentei falar contigo ontem, mas... enfim, não adianta reclamar de passado, né. Amanhã é aniversário do Sander. — assim que ele disse, meu cérebro meio que se ativou de verdade e engoli o nó. Eu não tinha percebido o tempo passando. Já estávamos no meio de Junho. — Ele disse para a gente fazer um Skype hoje, mas sei lá, já que você tá passando mal, acho que não vai rolar de vir pra cá, né? Aqui em casa...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora