Novembro III

80 18 4

O ENEM chega para todos, os preparados e os desesperados. São dois finais de semana horrorosos. Os dois sábados seguintes passo na escola fazendo revisões num aulão que parece bem improvisado, e os domingos passo numa escola na zona sul da cidade, imerso em fórmulas, textos e uma redação que me tira o fôlego (mas que não parece lá tão difícil de ser feita como imaginei que seria).

Meu estado mental é um tópico à parte: passo essas duas semanas em uma espécie de negação junto da aceitação, algo que me deixa imune à outras emoções. Chorei tanto no começo que parece que fiquei anestesiado.

— Não há nada mais que eu possa fazer — é o que digo à psicóloga e ela concorda.

— Às vezes a gente tem que ter muita sabedoria para entender que algumas coisas não estão sujeitas à nossa mudança, e que não adianta sofrer por elas. — foi o que ela me aconselhou.

E não é que comecei a concordar com a Doutora Helena? Logo agora é que percebo o quanto essas sessões são importantes e válidas. Ainda dá pra aproveitar um pouquinho, mas sei que talvez eu precise de terapia é pra vida inteira, não só durante meu último ano do ensino médio.

***

Passado o ENEM, a escola anuncia a Feira de Ciências do colégio. Tudo bem que já sabíamos que ela seria logo depois das provas, e que na realidade não precisamos nos preocupar muito porque o projeto do terceiro ano inteiro já estava sendo construído na aula de robótica durante todo o segundo semestre.

O que eu não contava é que a feira seria bem no dia do meu aniversário.

Não que eu estivesse planejando uma festança nem nada — e com as coisas do jeito que estão, não há sinal de comemoração alguma na minha casa —, mas eu queria pelo menos aproveitar o dia fazendo exatamente o contrário do que faço sempre, que é ir à escola e me preocupar com o futuro.

Parece que não vai ser essa ano que vou conseguir.

— Ah, para de drama. A gente ainda pode aproveitar muito! — é a resposta que o Renan me dá quando resmungo. Ele executa um movimento com as sobrancelhas que me faz rir até a barriga doer.

As aulas não têm mais conteúdo depois do ENEM. É uma mistura de simulados e revisões que não valem muito nosso esforço, para ser bem sincero. Então dou o braço a torcer sempre que o Renan me chama para sair depois da aula — e ele faz isso todo dia, então todo dia estamos andando pela pracinha, ou no shopping, ou na sua casa.

Aliás, é estranho estar lá porque não sei como a família dele me vê. A mãe está quase sempre em casa, assistindo TV e conversando com a empregada. Nos cumprimentamos e o Renan logo me reboca pro quarto, fechando a porta. Vejo que ela não reclama, mas também não é como se fosse seu cenário ideal. Já a ouvi pedindo pro filho deixar a porta do quarto aberta, mas ele é teimoso e irredutível... Principalmente porque é seu mundo particular, e é com a porta fechada que podemos ficar à vontade, se é que me entende.

Não é como se nosso relacionamento tivesse dado uma guinada de uma hora pra outra depois da conversa sobre exclusividade, porém. Estamos indo devagar para nada dar errado — e também porque sabemos que não precisamos ir mais rápido. Temos tempo pra tudo. Ou pelo menos eu acho que temos... Até as paranoias de faculdade e fim de ano e de escola tomarem meus pensamentos.

Tento não tocar no assunto quando estamos juntos, contudo. Se fosse uma preocupação real, acho que o próprio Renan falaria.

Enfim, o fato é que essas semanas me fazem relaxar mais do que imaginei ser possível, e me deixam ficar menos preocupado com alguns detalhes da minha vida. Quando estou deitado na cama do Renan, ele meio dormindo, meio acordado sobre meu braço, as pernas sobre a minha, às vezes reclamando do calor ou da chuva que cai de repente... Não precisamos de conversas intermináveis. É assim que eu sinto paz.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora