Julho VIII

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Parece que o destino, ou sei lá o quê, gosta de pregar peças na gente, né? Quando tudo parece indo de vento em popa, o tal do Murphy resolve aparecer e estragar a navegação.

No domingo à noite meu celular vibrou. A tela mostrava que eu havia recebido uma mensagem num dos aplicativos de pegação que ainda não deletara.

Era o Otávio.

Durante o jantar, fiquei mexendo no pingente do meu bracelete, revirando-o com nervosismo. Eu não costumava tirá-lo do pulso, mas raramente o fazia ficar tão visível assim a ponto dos meus pais perceberem e, claro, comentarem.

— Vai quebrar essa pulseirinha, Daniel — minha mãe alertou.

Milagrosamente sentados na mesa da cozinha, nós três nos entreolhamos. Meu pai tinha desligado a TV por vontade da minha mãe e apreciava a picanha que ela preparara, mas foi só o comentário sair e eu me tornei o centro das atenções.

— Tira esse lixo. Que coisa de viado. — ele praticamente cuspiu no prato. No bolso do meu short, meu celular vibrou de novo. — Que barulho foi esse? É a porcaria do seu telefone?! Já falei pra deixar isso longe quando tiver com a sua família!

Não respondi, só remexi o garfo nas ervilhas, de cabeça baixa, e escondi o pulso esquerdo debaixo da mesa. Voltei para o quarto sem ter engolido muita coisa, só os sapos de costume, e constatei que as mensagens não paravam de chegar.

Ele estava insistente. Mais do que de costume.

E eu estava insistente em ignorá-lo, pelo menos até quando deu.

Na segunda, saí com minha mãe para fazer compras num supermercado bem longe. Deixei o celular em casa, desligado. Na terça, meu pai me pediu para ir visitar a mãe dele, já que ele mesmo não fazia isso e o Carlos, único neto "disponível" além de mim, tinha viajado para a praia com a família. Visitar vovó me deu a desculpa perfeita para que meu celular ficasse novamente desligado, já que ela não gostava dessas "tecnologias" e o sinal por lá era horrível.

Eu gosto de vê-la e aproveitei para conhecer a tal cuidadora que contrataram para ficar com ela — uma senhora de uns cinquenta e poucos anos de nome Marta, ou "Martinha, pode me chamar de Martinha, viu?". Ficamos conversando bobagens e comi um bolo de laranja que vovó tinha ajudado a preparar com a Martinha. O dia passou rápido, voltei tranquilo e até pensei em ir visita-la mais vezes durante aquela semana de monotonia...

Então aconteceu na quarta-feira: Otávio me ligou.

Depois de todos os meus esforços, ele me pegou desprevenido porque minha mãe viu o telefone tocando.

— Não vai atender? — ela perguntou. Eu balancei a cabeça. — Ai, Daniel, atende. Vai que é alguma urgência?

Ela obviamente não viu quem era, mas insistiu tanto que acabei apertando o botãozinho verde e atendendo. Me tranquei no quarto, porém, para que não escutassem a conversa.

Você sumiu. — a voz do Otávio soava jovial. Não havia qualquer som de fundo na ligação.

— Ocupado com as coisas do colégio...

Ah, sim. Entendo. — ele deu uma pausa para beber algo e então escutei o barulho de água. Imaginei-o deitado na banheira, a vista de toda a cidade do seu apartamento de vidro... — É seu último ano, tem que se dedicar mesmo, mas isso não te impede de se divertir, certo?

Soltei uma risada anasalada, ele me acompanhou, alegre.

Senti que estava sendo ignorado... — Otávio continuou, provavelmente balançando uma taça de vinho nas mãos enquanto se esticava na banheira panorâmica. — E não gosto de ser ignorado. Então resolvi ligar e fazer o convite.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora