Abril II

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O sábado seguinte mostrou que o Carlos consegue fazer tudo o que quer em tempo recorde: acordei com uma ligação do meu primo dizendo que o treino estava marcado para depois do almoço. Eu não acreditei que teria de deixar o apartamento do Otávio antes do previsto para evitar confusão com um time de futebol que nem existia mais, mas foi isso que eu fiz.

Meu primo desistiu de fazer testes e acabou chamando quatro garotos que ele já meio que conhecia e que tinham entrado no colégio naquele ano ­— ou seja, eram todos novatos e novinhos, quinze anos no máximo. O mais novo deles, inclusive, ficaria no lugar do Joel no gol.

Carlos apresentou os mais novos pro resto do time e ficou a maior parte do tempo se gabando e contando vantagem, como já era de se esperar, mas conseguimos bater uma bola depois. Os meninos pareciam meio medrosos e rolou uma situação chata quando o Renan chutou uma bola um tico mais forte que o normal e o goleiro novo, João Pedro, pegou de mal jeito.

— Porra, Renan, desse jeito você quebra o menino antes mesmo da gente ter um jogo de verdade! — Felipe riu, Renan revirou os olhos e foi motivo pro Carlos parar o treino e falar que a gente tinha que jogar em equipe, que aquilo era coisa de ser fazer em adversário, não no próprio time e blábláblá.

— Mas é bom você ficar esperto, porque precisa aprender a pegar essas bolas — ele concluiu, o menino balançou a cabeça meio distraído do sermão.

Fiquei de fora da segunda partidinha rápida porque senti minha panturrilha reclamando, então me sentei na arquibancada pra assistir. Qual foi a minha surpresa em constatar que uns cinco minutos depois eu já não estava mais sozinho?

— E aí, Danimel, tudo na paz?

Os gêmeos chegaram me cumprimentando animados, as mãos esticadas na minha direção, sorrisos estampados no rosto moreno de sol. Em se tratando de aparência, eles não haviam mudado nada. Cabelos e olhos castanhos, corte idêntico, olhares maliciosos e travessos. Gabriel e Rafael eram uma espécie de mentores para o time de futebol porque sempre foram os mais velhos de nós. Se formaram no ano anterior e o buraco deixado por ambos fazia Carlos ter pesadelos, eu imaginava.

Nunca fui muito próximo dos dois, mesmo porque não queria levantar mais desconfianças pro meu lado nos anos anteriores, visto que os gêmeos são primos do Luiz Eduardo. É claro, porém, que sempre tivemos de conviver no mesmo ambiente e trocar interações. Eu sabia como eles eram e estranhei que, ao converssarmos, soassem tão mais educados agora que antes.

— Como anda a vida de último ano do ensino médio? — Gabriel perguntou, parecendo realmente interessado. Contei dos apertos costumeiros e dos professores, ele deu um tapinha leve no meu ombro e mandou: — Cê vai tirar de letra, relaxa. A gente é que era burro mesmo.

O irmão soltou um risinho e suspirou enquanto mexia no celular.

— E vocês? — devolvi o questionamento mais por educação que qualquer coisa, mas seria legal saber da experiência dos dois que tinham saído do ambiente escolar há pouco tempo.

Certo, eu sabia que eles estavam estudando ainda, né, mas eram atmosferas diferentes.

— A faculdade é um saco. — Rafael resumiu e o irmão deu uma gargalhada. — Sério. A gente acha que vai melhorar, mas só pior. É só uma versão crescida do ensino médio sem professores pegando no seu pé, mas ainda aquela pilha de dever de casa e gente chata pra caramba.

— Aliás, a quantidade de gente chata dobra. — Gabriel acrescentou.

— Triplica. — o irmão rebateu e eles trocaram um olhar enfadado.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora