Abril I

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Abril começa com uma avalanche de trabalhos escolares. Já devíamos estar acostumados, mas parece que a carga triplicou — ou isso ou eu realmente estou perdendo o ritmo. É com um pouco de desespero que percebo que estou em dúvida (e em dívida) com as matérias. Quando chego em casa e começo a revisar e preparar os trabalhos, noto que preciso realmente estudar, sabe? Procurar a matéria, assistir umas aulas extras no YouTube... Isso não costuma acontecer porque presto atenção na sala, mas com minha cabeça do jeito que anda, prevejo reais consequências.

Isso não é bom.

Decido tomar algumas providências já na primeira semana. Corto meus intervalos por visitas à biblioteca: sempre recorri ao lugar para tentar me concentrar. Pelo menos minha consciência pesa um pouco quando estou por lá e consigo, de fato, absorver algo. Como o Renan está me esperando para o almoço, comunico a decisão a ele, que não fica muito contente:

– Ah, para com isso, Daniel! Cê é muito inteligente, um diazinho estudando dá conta do recado... Agora vai pular o almoço pra ficar na biblioteca? A gente não tá nem no fim do ano pra fazer isso! – ele reclama.

– Se eu não fizer isso agora, não chego nem no fim do ano... Sabe que é assim que se evita uma recuperação indesejada, né?

Ele revira os olhos e bufa, nervoso. Renan pegou recuperação no ano anterior e teve que abdicar das férias pra estudar. Sei que a memória o deixa nervoso, mas ele é do tipo que só se desespera frente uma ameaça real: ainda não tínhamos as notas dos primeiros trabalhos ou simulados para ficar claro que ele precisava estudar. Assim, ele não via a ameaça.

Eu via. Eu tinha alguém falando dela o tempo todo e estava acostumado a dormir pensando nela.

— Se você não quiser ir comigo, tudo bem, ué. — encolhi os ombros.

Renan bufou ainda mais alto.

— Claro, valeu, vou ali almoçar com o Carlos. — ele me encarou, soltando marimbondos pelas ventas. Estávamos descendo as escadas e tínhamos acabado de chegar no térreo.

Nos olhamos por mais alguns minutos e ele revirou os olhos, grunhindo, me deixando sozinho em seguida:

— Tchau.

Não sei se falou sério em ir almoçar com o pessoal do time, mas saiu portão afora sem dar maiores explicações.

***

Abril também é um mês conturbado na minha casa — aliás, todos os dias são, mas os dias de Abril tendem a piorar a situação porque é aniversário da minha mãe no fim do mês.

Assim, quando chego em casa, ainda na primeira semana, ela já está em polvorosa escrevendo mil listas de afazeres e criando paranoias. Acho que nesse ponto somos bastante farinha do mesmo saco, viu?

— Mãe, o aniversário é só no dia 28.... — digo. Ela me olha como se eu fosse muito, muito ingênuo.

– Meu filho, e você não sabe o trabalho que dá organizar essas coisas? Tem que planejar a comida, as bebidas, ver o que suas tias vão querer trazer ou comer no dia... Aliás! — ela parece se lembrar de algo que a deixa alarmada. — Preciso organizar as finanças pra isso tudo! Se formos numa distribuidora no centro da cidade, consigo um preço melhor nas coisas.... Mas pra isso preciso da ajuda do seu pai pra trazer pra casa... E da sua, talvez. Então tem que ser num dia que você não tenha aula até tarde...

Uma coisa leva a outra e, no fim, percebo que ela está enumerando todas as dificuldades numa outra lista. Deixo que planeje como ela quer, sem interrompê-la com meus comentários. Fico presente de corpo, mas minha alma está vagando em um lugar distante, cheio de fórmulas de física, química, tratados de história, mapas geográficos e escolas literárias...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora