Junho I

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Fizemos nossa inscrição do ENEM em conjunto, na sala de informática e sob a orientação dos professores e da inspetora do colégio. Só documentos pessoais são exigidos, dados básicos mesmo. Marco a opção de fazer a prova de língua inglesa e chego na parte de pedir isenção de taxa...* Todo mundo pula essa etapa e vai direto para a impressão do boleto de pagamento, mas eu hesito. Sei que ajudaria muito minha mãe se eu conseguisse essa isenção, mas também sei que seria como jogar uma bomba na escola e apontar uma seta permanente para a minha cabeça com os dizeres: bolsista pobre infiltrado e disfarçado.

Pondero por uns dez minutos e, por fim, resolvo inventar que a página do boleto não carregou e que vou terminar em casa. Os professores não insistem, ninguém quer saber detalhes, então respiro aliviado por ter saído ileso. Em casa, solicito a isenção e me sinto bem por saber que estou fazendo o certo e necessário, mas não conto aos meus pais sobre isso.

Enfim, apresentamos nossos trabalhos na última semana de Maio, mas as notas só são reveladas na primeira semana de Junho. Já na apresentação eu sabia que nosso desempenho não seria dos melhores: Caíque e Carlos simplesmente leem os slides e fazem piada para ver se os professores compram, mas ninguém está disposto a tirar a mão do bolso. Enquanto isso, o grupo da Maria Eduarda faz questão de usar o projetor, de passar um videozinho e de ter decorado as falas antes.

Confesso que não evito as comparações, porque elas vêm sem que eu perceba. Eles são entrosados, se comunicam com gestos e sabem do que o outro precisa. Isso já era visível entre o Luiz e a própria Maria, mas noto que essa habilidade se expandiu para além deles. Até a Camila e o Diego, que agora também fazem parte do grupo, foram incorporados nisso. O Pablo e o Marcos, apesar de estarem atualmente em outra classe, ainda conseguem se comunicar assim também.

Quando o William explica a parte dele de uma matéria de física que eu não havia entendido bem de primeira com o professor, me sinto extremamente humilhado: eu consigo entende-lo quando presto atenção, o que significa 50% do tempo. Na outra metade estou ocupado demais tentando controlar a raiva que sinto por toda a situação estar fora do meu controle — aliás, por ter deixado tudo sair do controle, que eu sempre tive até então.

Quando o boletim bimestral aterrissou na minha mesa, eu tinha consciência disso tudo. Já havia me preparado física e mentalmente para as consequências... Mesmo assim, foi um baque virar a folha e ver a quantidade de notas escritas em vermelho.

— Olha, eu não quero nem aparecer lá em casa hoje... — Renan estava sentado do meu lado na quadra descoberta durante o horário do almoço. Tínhamos comido um hambúrguer da cantina e o clima estava nublado, pra colaborar com a tragédia da nossa vida escolar.

Nas mãos, ele tinha com seu boletim. Oitenta por cento das notas eram vermelhas, mas por poucos pontos. Um, dois no máximo. Só uma que se afastava disso...

— Até que não foi tão ruim — eu comentei. — Você teria conseguido se tivesse se dedicado às últimas provas e trabalhos.

Ele revira os olhos.

— Você sabe com quem eu estou fazendo esses trabalhos? As meninas só querem saber de fofocar! Tive que ficar respondendo um questionário absurdo sobre quais garotos da sua sala estavam solteiros e disponíveis... — eu ri, ele suspira. — É sério, cara. Elas são obcecadas. E não vale qualquer um, não! Tem que ser do "terceiro ano A, porque o terceiro ano A só tem os melhores" e blábláblá.

Ele imitou uma voz esganiçada qualquer e me arrancou mais uma gargalhada.

— Mas são as meninas que você tava acostumado a fazer trabalho ano passado, não?

— São. E mesmo assim elas ainda acham que eu tô escondendo alguma coisa...

— E não está? — levantei uma sobrancelha.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora