Julho II

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Acho que já ficou claro que eu não tenho costume de ouvir música — meu pai me criou bem demais com a ideia de que diversão pros ouvidos é só nos momentos de folga extrema, nos restinhos dos fins de semana, por exemplo. Renan acha esse conceito absurdo porque ele mesmo não consegue viver sem fones de ouvido, e sinceramente eu concordo, mas como não me acostumei, não consegui incorporar isso na minha rotina, sabe? Já foi sorte demais eu ter crescido com um videogame em casa, porque meu pai também é contra, claro, então a música meio que ficou de lado.

Eu escuto as coisas que o Renan e o Sander me mandam, mas não procuro por mim mesmo conhecer música nova. Ainda bem que o gosto dos dois parece condizer com o meu, e que não passa nem perto do que aquela dupla da Festa Junina estava cantando.

Quando o Joel chegou, deixei-o sozinho com o Renan e fui ao banheiro. O show dos sertanejos ainda estava acontecendo, então a frente do palco era ocupada por dezenas de pessoas pulando e cantando junto. Tive dificuldades em me movimentar no meio delas e, quando ia voltando para o meu posto de guardião da escada, esbarrei no meu vizinho. Humberto. Ele estava acompanhado da namorada.

A namorada do Humberto é a Maria Eduarda — sim, a da minha sala, melhor amiga do Luiz Eduardo.

Esse mundo é menor do que você imagina...

Nós trombamos de frente, ombro no ombro. Não tinha como desviar nem fingir que não aconteceu.

Nos olhamos meio sem graça. Na verdade a gente se topava quase sempre. Como somos vizinhos de porta, eu o vejo saindo de carro com os parentes todos os dias quando estou indo pra escola. Vejo-o a noite, vejo-o nos fins de semana, vejo-o quando não quero, nas portarias do condomínio, na rua, pela janela...

Eu sei que a família do Humberto não gosta da minha família: eles já reclamaram oficialmente várias vezes do barulho que meus parentes fazem quando se reúnem na minha casa. Não os culpo, porém, até eu reclamaria. Mas, talvez por ser mais próximo do Luiz, o Humberto tenha acumulado outro tipo de aversão contra a minha pessoa.

Eu também não podia culpa-lo por isso.

— Foi mal — ele se desculpou com um sorriso amarelo.

Ao seu lado, a Maria esticou o pescoço pra ver em quem ele tinha trombado.

— Tudo bem? — ela perguntou, a voz elevada por causa da música. Não tive certeza se era pra mim ou pro namorado, porque ela olhou para nós dois. Como ninguém respondeu, Maria Eduarda se virou pra mim: — Você tá no palco, não tá, Daniel? Eu preciso resolver uma coisa — ela olhou enviesado pro Humberto. —, mas fiquei de ajudar na troca dos músicos. Tipo, tirar os microfones, os banquinhos que eles estão usando e tal. Se eu não voltar até eles acabarem de cantar, você pode chamar a Mariana pra dizer pra ela? Ou pedir alguém mais pra ajudar?

Concordei. Ela ainda perguntou se eu estava sozinho, porque senão ela chamaria outra pessoa pra fazer sua tarefa, mas me apressei em dizer que estava com o Renan e que não precisava se preocupar que nós poderíamos ajudar.

— Então tá bem. Qualquer coisa me chama no celular, tá? — ela se virou pro namorado. — Vamos?

Humberto ainda me deu uma olhada e eles passaram por mim. Por conta da quantidade de pessoas, nenhum de nós conseguiu sair bem do lugar, então pude ouvir a conversa gritada dos dois logo atrás.

— Não sabia que vocês conversavam. — Humberto comentou, a voz subindo por cima do som do palco.

— Qual o problema? Ele é da minha sala, por que não conversaríamos? — a Maria respondeu, parecendo impaciente.

Se eu não tinha entendido mal, eles não estavam nos seus melhores dias como um casal.

Humberto bufou alto.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora