Novembro VI

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A Feira de Ciências acaba às 17 horas com aplausos da diretora e dos professores ao nosso trabalho. Há vários pais e outros parentes nos cercando, e todos soam muito orgulhosos dos filhos que têm. Os alunos dos outros anos estão visivelmente com inveja — vejo o Ítalo e o João Pedro, por exemplo, cochichando e, mais tarde, parabenizando meu primo, que de longe foi o que menos ajudou na construção do nosso robô.

Engraçado, também não vejo meus tios, os pais do Carlos, na Feira. Se foram, passaram bem longe da minha pessoa — e isso não me incomoda, me deixa aliviado, isso sim.

O pai do Renan e o irmão mais velho não parecem mais presentes, mas a mãe espera o discurso da diretora acabar bem ao seu lado, me mantendo um pouco distante. Eles ainda conversam enquanto os restantes se movimentam pra sair depois de terem sido dispensados, mas eu permaneço sem saber muito para onde ir — não tenho nenhum parente para acompanhar até a saída, né.

Me distraio um pouco e demoro para perceber que o Renan está me gritando e gesticulando para que eu me aproxime dos dois. Vou pé ante pé, porque acho que já esgotei minha educação em interações sociais por hoje. Ao me aproximar, vejo que ela, uma socialite imponente e bem vestida, está dando milhões de recomendações.

— ... Se for usar o cartão de crédito, usa o do seu pai que o limite é maior, tá ok? E se for precisar de café em casa, tem que me avisar antes pra eu pedir pra empregada preparar algo porque eu vou sair com a Vanessa bem cedinho...

Renan me olha de lado e revira os olhos, impaciente com a mãe. Ela nota minha presença e me cumprimenta educadamente, encerrando brevemente as recomendações e já se despedindo.

— Bem, então nos vemos amanhã? Qualquer coisa você me chama no meu celular, está bem?

— Tá bom, mãe, relaxa. É só uma noite...

Ela arqueia as sobrancelhas e respira fundo, mas seja lá o que ia falar, parece mudar de ideia e só nos olha com relutância, pedindo que nos cuidemos e, de novo, mandando ligar caso precisemos. Renan e eu a acompanhamos até a rua e ela pega um táxi para ir embora, deixando nós dois no portão do colégio.

— O que você disse pra ela? — pergunto, um pouco desconfiado.

— Que ia sair com você pra comemorar seu aniversário, ué. — ele se faz de inocente. — E que não precisava me esperar de noite porque eu não ia voltar.

Processo a fala por um momento.

— E ela não quis saber pra onde você vai? — ele nega e eu absorvo a informação enquanto nos encaramos. — Mas você sabe pra onde você vai... né?

Renan sorri de lado. Um sorriso meio cínico, travesso, que me dá um frio na barriga inexplicável e que eu só consigo expressar sorrindo de volta.

— Claro que sei. — ele se aproxima, puxa minha mão entre as dele e entrelaça nossos dedos, me apertando. Seu nariz roça no meu e seus olhos estão brilhando quando diz, bem baixinho: — Sei pra onde a gente vai porque, como você me incumbiu dessa tarefa, já planejei tudo. E vamos pra lá agora porque tô morrendo de fome.

Eu solto uma gargalhada porque acho que a ideia que o Renan tem de um motel é basicamente a de um buffet livre. E eu adoro o jeito como ele está levando toda a situação a sério, mas ao mesmo tempo leve demais, sem se preocupar demais. É assim que precisa ser, senão já estaríamos surtando com a expectativa.

E também me sinto muito leve de pensar que não darei explicações a ninguém por passar a noite fora, ou sequer me sentirei culpado de mentir. Ninguém liga, mas eu experimento dessa sensação pela primeira vez e ela é, no mínimo, libertadora.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora