Julho I

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Festa Junina é mesmo uma tradição em colégio brasileiro, né? Lembro que quando o Sander estava aqui, ele ficou completamente sem entender o motivo, porque a gente raramente sabe a origem dessas coisas e tal. Recordo ainda que, no nosso primeiro ano do ensino médio, tivemos que fazer uma pesquisa por causa disso, mas ano passado os professores não pediram coisa alguma. Esse ano, muito menos. Estávamos tão atarefados em finalizar o bimestre no tempo certo, fazer os trabalhos antes das férias e tudo, que mal se falou na festa — pelo menos não entre a gente. O pessoal do primeiro e segundo ano estavam empolgadíssimos, por outro lado.

Entraríamos de férias no dia treze de Julho e a Festa Junina marcaria seu começo, acontecendo no sábado dia quatorze. Não tivemos simulados no dia, e também fomos dispensados de ajudar na decoração. Só marcamos de estarmos todos às cinco da tarde na escola, porque os portões se abririam às seis e a tal dupla sertaneja passaria o som nesse período.

Eu não fazia ideia de quanto tinha sido o cachê cobrado, mesmo porque nas duas semanas entre a reunião e a festa em si, o Renan nunca mais comentou o assunto e eu não procurei saber. Só sei que a Mariana recebeu a minha parte da contribuição porque, numa listinha fixada no mural entre salas, na frente do meu nome estava escrito "pago" em tinta verde.

Na verdade, eu não sabia nem quem eram as pessoas que havíamos "contratado", primeiro porque não sou muito apegado à música, e segundo porque sertanejo me lembra meu pai. E isso quase que automaticamente me afasta do gênero musical.

Quando cheguei no colégio no sábado da festa, então, não sabia o que esperar. Meus pais estavam comigo e entramos juntos, mas eles logo foram procurar uma mesinha, esperar meus tios e tal, e eu fui atrás do pessoal da sala, pra ver o que tinha que ser feito.

Encontrei (quase) todos de frente ao palco montado nos fundos da quadra descoberta. Estávamos vestidos com blusas quadriculas de flanela, chapéus de palha, botas, tudo o que o caráter exigia. Eu usava praticamente a mesma roupa todos os anos: calças jeans rasgadas, botas de bico fico com esporas douradas, herdadas do meu tio Gilson, uma camisa xadrez e um chapéu de remendos de pano que minha avó fizera pra mim e pro Carlos uns anos atrás. Meu primo já aposentara o dele, porque comprara outro melhor, mas eu ainda usava o meu. Era uma lembrança boa...

A diferença é que nesse ano eu não fiz nem quis que ninguém fizesse bigodes ou dentes podres em mim. Eu queria ir mais parecido comigo mesmo e menos escondidos por detrás de fantasias.

Já bastava a que eu vestia todos os dias, né?

— Ah, que bom que chegou! Mari, o Dani tá aqui! — a Camila me deu um abraço de lado e chamou nossa representante, que aparentemente estava me procurando. Ambas usavam vestidos rodados com laços vermelhos e rosas, babados, meias até os joelhos e botas com esporas. As meninas se divertiam na festa só pelas roupas!

Observei o espaço. Um bocado de gente estava sentado no chão, as pernas penduradas pra fora do palco. Lá no cantinho mais distante de mim, vi o Renan de pernas cruzadas ao lado do Marcos e do Pablo, conversando com eles e com o casal do século, Luiz e William. Engoli seco.

Havia dois caras dedilhando violões, sentados em frente a microfones sendo posicionados na altura de seus rostos. Imaginei que era a tal dupla.

— Oi! — a voz da Mariana me puxou de volta para a quadra, tirando minha visão do palco. — Tava te esperando pra te alocar na nossa organização aqui... Não temos que fazer muita coisa; os caras trouxeram uns ajudantes e tal, um segurança também, mas temos meio que ficar "disponíveis" caso eles precisem de algo, sabe?

Eu fiz que sim e ela continuou falando alguma coisa desnecessária até a Camila lhe entregar uma prancheta com uma lista. Mariana verificou os nomes e soltou uma exclamação:

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora