Outubro II

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Na primeira sexta-feira de Outubro, a folha do Dia D diz que temos de ir fantasiados de algum desenho animado. Considero ir de Pinóquio (porque sou o mentiroso em pessoa), mas o Renan me convence a usar uma fantasia absurda de quente do Tico e Teco com ele. É uma desculpa idiota (e convincente) para que possamos ficar abraçados o tempo todo. Dá certo.

Na sexta da semana seguinte, o tema é "Dia das Crianças" já pra nos preparar para o feriadão. Renan viaja no sábado, então é o dia que temos antes dele passar uma semana longe. Ele me encontra na pracinha e está usando um short azul royal curto, meias brancas até o joelho e um all star vermelho todo surrado. Há um suspensório — meu Deus, eu não achei que fosse ver um suspensório tão cedo na vida! — prendendo sua blusa amarela no short. Pra completar, um boné todo colorido, uma merendeira na transversal, e um babador pendurado no pescoço. Ele está parecendo um...

— Sou um bebê dos anos noventa — é como me recebe, encolhendo os ombros. — Ou pelo menos foi disso que minha mãe me chamou.

Eu me dobro de tanto rir porque é a mais pura verdade! Renan está rindo também, mas se esforça pra passar um outro babador pelo meu pescoço enquanto caem lágrimas das minhas risadas. Também estou de short, mas mais discreto, digamos. Ele me entrega um caminhãozinho puxado por uma cordinha e diz que é meu acessório oficial, porque no fim das contas eu não pareço muito criança. Não se comparado a ele.

Eu não consigo tirar os olhos das cores que Renan usa e de como isso deixa meu dia mais agradável, mesmo que ele nem tenha começado direito. Antes de descermos para a escola, então, eu faço algo que nunca fiz antes, não com a mesma intenção ou no mesmo lugar, muito menos com a mesma pessoa.

Renan está falando sobre irmos pra sua casa na hora do almoço, sobre matar a aula de robótica, sobre irmos ao cinema mais tarde, aproveitar a sexta-feira e eu simplesmente dou um passo à frente e o beijo. Minhas mãos estão no seu pescoço, meus olhos estão fechados e meus ouvidos parecem surdos porque não quero pensar em nada que não naquela sensação. As mãos dele vacilam, mas logo vão parar na minha cintura, sua respiração se interrompe pelo susto.

Não penso que alguém do colégio pode passar e nos ver juntos. Não penso, só faço.

Eu queria ser mais assim, conseguir só fazer.

— Credo, seu pedófilo. Faz de novo. — Renan encosta a testa na minha e sussurra, um sorriso irônico no canto da boca. Isso me faz gargalhar de novo, mas aperto seu pescoço em resposta e descemos para a escola de uma vez, lado a lado, os cotovelos se esbarrando, minha mão sobre a dele de vez em quando....

Todo mundo está no clima alegre e descontraído da sexta-feira pré-feriado, mas eu só quero que a aula termine logo ao mesmo tempo em que quero que ela dure para sempre. O pessoal está comentando sobre se encontrar na festa dos gêmeos, empolgados, e a Mariana me pergunta se estarei lá. Respondo que sim, mesmo sem ter absoluta certeza.

— Renan vai com você ou vão se encontrar lá? — ela continua.

— Ele não vai na festa. — e me olha com as sobrancelhas arqueadas. Encolho os ombros e digo brevemente que vai viajar com a família.

— Você vai sozinho? Vamos nos encontrar lá então?

Assim que ela sugere, a Camila aparece do nosso lado nas carteiras e se abaixa para perguntar quase a mesma coisa:

— Você vai na festa dos gêmeos, né, Dani? Vamos nos encontrar lá?

Eu olho para as duas sem saber muito como responder, e elas também se entreolham e no fim das contas não dizemos nada pois o professor de história nos interrompe. Na hora do almoço, Renan vem até a porta da minha sala para "me buscar", então também não tenho tempo de dizer qualquer coisa à uma delas.... Mas me sinto esquisito. Nunca me convidaram para ser companhia de ninguém. Na verdade, eu meio que fico flutuando no meio das pessoas, nunca fazendo muito parte de nenhum grupo. O único que eu achava pertencer agora me parece tão distante da minha realidade que não faz nem sentido pensar sobre...

Enfim, vamos almoçar na casa do Renan. Percorremos o caminho todo de mãos dadas e eu ridiculamente só percebo isso quando ele me solta para abrir a porta do prédio. Dessa vez somos só nós dois e a empregada no apartamento inteiro, e comemos quase com pressa para podermos ficar no quarto depois.

O ambiente me deixa relaxado. Não é como na minha casa, em que meu cérebro fica o tempo todo ligado na iminência de alguém abrir a porta. Sei que a empregada não se importa com a nossa presença, e o quarto do Renan é o último no corredor, nos isolando de qualquer interação com ela. Só pra garantir, ele gira a chave também. E nos fecha no seu mundinho particular.

Seguro, meu cérebro grita.

Não mais que de repente, estamos na sua cama. Nem sei como isso aconteceu, mas não parece um detalhe importante. Sinto as pontas dos seus dedos no meu pescoço e atrás da minha orelha, tocando o exato ponto em que meus cabelos começam a nascer ali. Eles se movem devagar, entrando no meio dos fios com cautela enquanto a boca dele me beija. Devagar, devagar... Saboreando cada pedacinho.

Minhas mãos estão nas suas costas porque não consigo me mexer direito; o corpo do Renan está sobre meu braço, metade sobre meu tronco, uma perna no meio das minhas... Não me sinto preso, porém. Sinto seus lábios nos meus, me dando "mordidas" de vez em quando. Não sei se ele percebe que faz isso com frequência, mas é quando o faz que tenho tempo de me focar em outras particularidades do momento, como a delicadeza do seu tato entre meus cabelos.

Expiro, perco um pouco do fôlego e Renan para de me beijar, abrindo os olhos a três centímetros dos meus. Sinto sua respiração totalmente descompassada, e ele percebe que está quase em cima de mim, então se acomoda mais para o lado da cama. Não dizemos nada; não precisamos dizer nada, eu acho.

Renan deita na curva do meu pescoço e me abraça. Uso do momento pra levantar minha mão livre até seu pescoço, a nuca, os fios de cabelo bagunçados. Um cafuné, o cheiro de xampu que ele exala, a pouca claridade da janela, a segurança e o conforto da sua cama...

Noto que não sinto a correntinha que ele usa o pescoço, a que o Sander lhe deu. Procuro pelo cordão, insisto um pouco ao ultrapassar a linha do seu colarinho, adentro sua roupa, mas é claro que ele não reclama e acha que é só mais um carinho. Ele gosta, eu também gosto, mas acho estranho que ele não a esteja usando.

Uma olhada para o lado e visualizo a foto em estilo polaroid que ele e o gringo tiraram juntos no campo de futebol, no ano anterior. Eu já a havia visto inúmeras vezes nas minhas idas ao seu quarto, mas ela sempre esteve sozinha, como num pedestal, na mesinha do notebook dele.

Agora a correntinha com a placa está lá, pendurada sobre a foto de modo ornamental. Fazendo parte da paisagem.

"My favorite hello, my hardest goodbye"

Sinto meu coração inflado, mantenho a calma o máximo que consigo, mas acabo apertando-o junto de mim, abraçando-o, beijando-o mais, tentando fazer aquele momento durar. E ficamos assim o resto da tarde.

Queria ter ficado assim o resto da vida.

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Podem continuar votando na "enquete" anterior e dando opinião sobre a festa dos gêmeos, tá? :)

Novidade pra quem me acompanha: me tornei oficialmente embaixadora do Wattpad e também do perfil Ficção Adolescente de Língua Portuguesa da plataforma <3

O símbolozinho tá no meu perfil já e fiquei muito feliz de poder fazer parte da equipe que leva novas histórias pra tanta gente aqui! Espero contribuir positivamente, e espero que vocês continuem comigo nessa jornada porque o wattpad me faz ficar mais perto dos leitores e é disso que gosto <3


Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora