Setembro II

83 20 5

Renan aparece na minha casa às dez da manhã do feriado do dia sete de Setembro. Eu já tinha avisado que ele iria, então minha mãe está na cozinha preparando o "almoço especial" pra gente. Meus parentes estão na casa da minha avó, mas meu pai se recusou a sair da frente da TV porque queria ver reprises de uns jogos de futebol que acompanha.

Ele não quis ver a mãe para assistir futebol na TV, foi isso mesmo.

— Eu trouxe uma sobremesa... — Renan deposita um pote de doce de leite na mesa e minha mãe fica genuinamente feliz com a lembrança. Eu seguro um riso, porque é muita formalidade desnecessária, mas vejo que ele está se esforçando mais que o normal, então meu estômago se preenche com aquela sensação esquisita.

A sensação de que a faísca está virando uma chama... sabe?

— Não precisa trazer nada dessas coisas, você sab-

— Eu sei. Acha que ela não gostou? — subimos para o meu quarto. Renan se espreguiça na minha cama com intimidade, digamos. Digo que minha mãe deve ter adorado o presente e ele fica satisfeito. — Então ótimo. Não ligo de trazer; minha mãe mesmo deve ter uma coleção de coisas que não se importa que eu distribua, se é que entende... Enfim, o que tava fazendo? Vem cá, senta aqui um pouco comigo...

Ele bate a palma no colchão e não espera que eu responda, me puxando pelo pulso e segurando minhas mãos entre as suas.

— São dez horas da manhã de um feriado, o que acha que eu estava fazendo?! — eu rio.

— Sei lá. Pensando em mim, talvez... — Renan faz um movimento engraçado com a sobrancelhas e nós dois rimos antes que ele me puxe pra me beijar.

Acho que passamos o resto da manhã inteira sem sermos incomodados no meu quarto. Com meus pais ocupados no andar de baixo, eu fico deitado ao lado dele, nós rimos e conversamos bobagens no meio dos beijos e abraços meio desajeitados. Apesar de ser tudo bem novo pra mim, essa ideia de podermos ser mais que amigos, me sinto confortável e livre pra falar sobre tudo, até sobre a gente, assunto que surge meio do nada enquanto eu contava que tinha conversado com o Leonardo no dia anterior.

— E vocês conversam bastante? — Renan pergunta, mexendo nos meus dedos, a cabeça encostada no meu ombro. — Tipo, vocês se viram depois da feira na escola...?

— Não, só no facebook. Eu só acompanho. Na verdade, foi a primeira vez que a gente se falou sério, sem contar o dia da feira... Ele é legal, parece. — Renan se desencosta pra me fitar e eu encolho um pouco os ombros. Sua expressão é esquisita, não sei decifrá-la muito bem.

— "Legal" — ele repete sem emoção, eu fico um pouco confuso. — Legal do tipo... um "amigo legal" ou...?

Minha testa se vinca automaticamente e eu me viro de lado para encará-lo.

— Não somos amigos. Só conversamos duas vezes na vida, mas ele parece legal do tipo... legal, ué. Do tipo que não se importa, por exemplo, se eu tenho namorada ou namorado... — abaixo a voz e espio a porta para ver se não fui pego no flagra da nomenclatura.

— Ele perguntou isso?! — agora é a testa do Renan que está toda marcada pelas suas expressões exageradas. — E o que você respondeu?

Dou de ombros e digo que ele teve que sair antes que eu respondesse.

Ficamos em silêncio enquanto Renan ainda remexe na minha mão. As dele são maiores que as minhas; é engraçado como ele parece analisar o formato dos meus dedos pra ver se eles se encaixam nos seus.... Tudo bem, na verdade sou eu quem faz isso. Inconscientemente. Até ficar muito consciente do ato e tentar forçosamente parar de olhar para as nossas mãos juntas, nossos joelhos grudados, a perna dele sobre a minha, os ombros se tocando...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora