Fevereiro IV

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Gosto de receber café na cama – não café a bebida, mas o café da manhã mesmo. Não gosto muito de café, a bebida. Tomo se insistirem ou se for a única opção. Prefiro suco. Prefiro bolinhos aos pães. Canela ao açúcar. Tenho um lado azedo, talvez seja o gosto que mais me agrade, não sei. Só sei que gosto do café na cama e, no lugar em que acordo no sábado de manhã, eu sempre recebo café na cama.

A cama em si é enorme, por sinal. Lençol branco, quatro travesseiros brancos. "Penas de ganso", foi o que ouvi falar. O colchão é macio, mas não tanto. A altura é perfeita. O quarto tem carpete, mas ele está limpo e cheiroso, como de costume. Não há qualquer outro móvel, só o lustre sobre a cama. A varanda à frente, toda de vidro, está parcialmente invisível pela cortina blackout. No pedacinho aberto, vejo que não há sol.

A bandeja do café da manhã transborda em frutas e petiscos. Na verdade, há duas. Pego a caneca enorme de suco de uma delas e trago comigo para me acomodar sobre os travesseiros enquanto observo, pelo pedacinho visível, o céu nublado lá fora. Ouço uma risada espontânea do lado de fora do cômodo, o que quebra um pouco o clima melancólico.

Ele entra no quarto no minuto seguinte. Senta-se ao meu lado e começa a devorar as uvas de uma das bandejas.

– Está bom? – me pergunta. Me distraio observando-o à vontade na minha presença. Balanço a cabeça em afirmativa e ele toma a dianteira para se servir de café. Café de verdade, a bebida. – Lembrei que gostou desse sabor da última vez. Nem sei de que fruta é...

Ele empurra as duas bandejas para o pé da cama a fim de protege-las de seus próprios movimentos. Se espreguiça enquanto come o resto das uvas e me oferece outras frutas no meio do caminho. Me distraio novamente, mas sei que o motivo não é só ele estar tão à vontade com um quase estranho: é porque ele está à vontade e completamente nu.

Não que eu esteja vestindo alguma coisa.

– Vamos tomar um banho depois do café. – Otávio anuncia. – Vou encher o ofurô, quer escolher os sais?

– Não vai ter que trabalhar? – pergunto.

– Não, de onde tirou isso? – ele franze a testa, eu dou de ombros. – Hoje é sábado. Não é?

– Ouvi o telefone...

– Ah! Já resolvi. Era só um dos sócios de um dos meus clientes. Ele está na cidade, sabe como é... Queria algumas dicas. Como disse que talvez pudéssemos fazer uma festinha ontem à noite, acho que ele ficou na esperança de que ela pudesse ser transferida pra hoje... – ele toma o café num gole só, por cima das frutas, e se vira para mim. – Mas não se preocupe. Seremos só eu e você nesse fim de semana, como pediu.

Otávio faz a maioria dos meus desejos. Ele prefere café, mas compra o suco pra mim. Sei que gostaria de ter chamado outros trocentos rapazes para o seu apartamento no 17º andar, no maior condomínio de luxo da região metropolitana, mas, por eu ter dito que queria privacidade naquela noite, ele me atendeu. Em troca, é claro, eu tenho que ser bom o bastante para compensar os outros caras que não foram chamados.

Não é a regra, não há nenhum contrato, mas eu sei que está implícito.

Otávio é rico. Muito rico. Não sei precisar o quanto, mas tenho certeza de que ultrapassa todos os pais dos meus colegas com facilidade. Nunca conversamos sobre isso, porém – aliás, raramente conversamos. Sei de uma coisa ou outra sobre sua vida, assim como ele sabe da minha.

É claro que ele tem consciência de que sou um estudante do colegial que praticamente acabou de fazer dezoito anos; e eu tenho total noção de que ele é um empresário acima dos quarenta que gosta de azarar garotos mais jovens em aplicativos de pegação.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora