Setembro III

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Enviado em: domingo, 19 de setembro (23:56)

De: Daniel.henri.chagas.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetalk.us

Assunto: RE: Tempo

Sei que estou devendo e já vou começar o e-mail me desculpando. Apesar de saber que você tem se mantido informado através do Renan, não é a mesma coisa que ouvir de mim, eu sei. Então, I'm really sorry. Espero que me perdoe por toda a confusão e estresse que eu tenho causado a vocês dois.

Hoje foi a "festa de aniversário" do meu pai — entre aspas porque nunca é uma festa, só uma reunião das pessoas da minha família. Todos vieram, na promessa de comer e beber de graça, claro. Até trouxeram minha avó de cadeira de rodas, e não sei se foi a melhor das escolhas porque ela ficou querendo se levantar o tempo todo pra ficar na cozinha ajudando minha mãe. Mas isso foi uma surpresa a mais, porque a presença dela me animou bastante. Fazia um tempo que não a via e, mesmo que sejamos tão diferentes, eu adoro muito minha avó, já comentei isso?

A outra surpresa, e que eu sei que você já está ciente mas não pelo meu lado da história, é que o Renan veio também. O irmão mais velho dele o trouxe, mas não quis entrar mesmo minha mãe insistindo. Foi estranho no começo porque algumas pessoas se lembravam dele do meu aniversário, mas tive que apresenta-lo novamente mesmo assim. E soa estranho fazer isso, apontar pra ele e dizer: "Esse é o Renan".... Reticências.

Ele é tão mais que isso, não é? E eu sei que soa esquisito dizer isso também, mas é o que fiquei pensando o tempo todo. Tampouco tenho uma nomenclatura pra usar nas suas apresentações. "Amigo" é ínfimo demais, e eu não posso ultrapassar essa alcunha. Não na minha casa, não ainda.

Não comprei presente pro meu progenitor. Não tenho dinheiro e, tenho certeza, ele teria ignorado de qualquer forma. Não me sinto mal por isso, deveria?

Carlos estava aqui e o Renan o cumprimentou com um aceno de cabeça educado, mesmo não estando conversando. Meu primo fez questão de ficar longe de nós dois até quanto deu — e, quando não deu, também fez questão de impor suas vontades e pensamentos idiotas. Como quando, depois do "parabéns" enrolado pelas bebedeiras dos meus tios, eles começaram a comentar sobre barzinhos e saídas que meu primo estava fazendo com bastante frequência, ao que parece. Renan e eu estávamos sentados numa ponta da mesa, ao lado do meu tio Wagner, bebericando um refrigerante enquanto o resto todo bebia cerveja, incluindo meu primo.

Acho que o fato de ele ter dezoito agora faz com que tenha subido na escala social da minha família, aparentemente. O que não se aplica a mim, que já tenho dezoito a quase um ano...

— Agora com carro, cê deve tá pegando todas, hein? — meu tio Gilson comentou, ao que ele concordou prontamente.

— É, mas não é pra tanto, né, tio? Tem que se valorizar. Né qualquer um que põe a mão nesse corpão aqui, não! — Carlos fez um gesto exagerado ao apontar pra si mesmo. Eu revirei os olhos e, não sei, acho que ele sentiu que tava na hora de alfinetar: — Não sou como uns e outros que ficam com qualquer um não. Tenho meu padrão, é claro.

Meus tios riram da prepotência, mas o deixaram falando. Ele não tinha terminado, pelo contrário:

— Quem passa na mão de todo mundo é esses viados de merda, que só sabem dar a bunda. Homem de verdade sabe se cuidar, né! Não fica cheio de doença aí, espalhando pra todo mundo...

Nessa hora o Renan bufou sem querer (eu acho), incrédulo com a capacidade do meu primo defecar pela boca. Antes que ele pudesse interferir, porém, eu me vi dizendo em voz alta:

— Não é você que sai com uma menina diferente toda semana?

Carlos injetou aquele olhar de ódio em mim, tentando me empurrar pra baixo.

— Escolho a dedo quem sai comigo. E pelo menos elas são todas higiênicas e não corro risco de morrer de AIDS depois.

— Nossa, que belo argumento. Espero que você tenha pedido o exame pra todas elas, então, porque, se você não sabe, qualquer DST pode ser transmitida por qualquer pessoa, independente do gênero...

— Ou da orientação sexual. — Renan completou meu raciocínio.

— Mas acho que você faltou nessa aula de ciências, né... — balancei a cabeça, soando falsamente decepcionado.

Carlos levantou o dedo do meio pra nós dois e ia contra-atacar se meu pai não tivesse levantado a voz e pedido pra gente mudar de assunto porque aquele lhe dava nojo. E era seu aniversário, ele não queria ouvir nada que tivesse "gay" no meio.

Sim, esse foi o ponto alto da festa. Também estou ligeiramente orgulhoso de ter levado a discussão adiante, mas desconfio de que foi porque o Renan não ia se aguentar, então fiz seu trabalho, já que estava na minha casa. Deixei que meu pai direcionasse seu "nojo" pra mim, e não pra ele. Os dois têm conversado sempre que se encontram e isso é ao mesmo tempo muito bizarro e muito bom. Certo?

Sobre o fato do Renan ter vindo para a festa: sim, eu entendi a dimensão do que isso significa. Talvez até mais rápido do que ele, por enquanto. Sei que você vai ficar empolgado com isso, mas estou tentando não surtar com a simples conversa que tivemos, a da "exclusividade". É, até hoje.

Digo, o que isso quer dizer, afinal? Estamos namorando? Estamos curtindo como bons amigos? Estamos apostando pra ver no que dá? Todas as alternativas anteriores?

Tenho um certo receio de puxar o assunto de novo e ele me chamar de idiota por não saber ler nas entrelinhas direito. Estou me sentindo um idiota por estar me questionando isso, aliás, mas... Sei que vocês conversaram quando estavam na mesma situação e definiram as coisas. Eu devo puxar o assunto? Não sei. Sinceramente, se definirmos isso, vamos ter que sair respondendo perguntas do tipo: "Tem namorada? Não, um namorado". E isso meio que me deixa um pouco em pânico porque nunca cogitei essa hipótese.

De ter um namorado de verdade. De estar ciente disso, de ter um relacionamento estável, de... De ter o Renan nesse papel.

Sei que está feliz com o rumo que as coisas tomaram, mas, além de tudo, acabo de pensar que é muita mesquinharia minha falar do Renan desse jeito pra você, logo pra você, Sander. Por tudo que vocês já passaram, e por tudo que você tem passado com o distância do Zachary... Não é justo, né?

Então me desculpa mais uma vez. E me desculpe antecipadamente...

Porque eu acho que o Renan vai continuar frequentando a minha casa por um bom tempo, pelo menos é isso que eu quero.

Com amor,

Daniel Henrique.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora