Janeiro II

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Faz quase dez anos que nos mudamos para cá. Dez anos que moramos na mesma casa, no mesmo lugar. Acho que teria continuado assim pelo resto da vida lá também, na minha cidade natal. Só que antes, quando chegamos, isso aqui era praticamente um terreno baldio. A construção do condomínio mal tinha começado. Hoje são dezenas de ruazinhas, três entradas, guaritas com seguranças a cada quilômetro...

É isso que meu pai chama de "tirar a sorte grande", mesmo não tendo sido exatamente escolha nossa.

Não sei se existem vantagens em se morar aqui, acredito que tenha quem se gabe por isso. Não eu. Não quando me lembro que estamos do outro lado da cidade, afastados por pelo menos uma centena de quilômetros do centro, e quase sem transporte público. Claro, quem aqui precisaria disso se todo mundo tem carro? Ou motorista? Ou os dois?

Todo mundo exceto a minha família, cujo único veículo fica nas mãos do meu pai o dia todo por causa do trabalho dele. Eu (e minha mãe) vivo da única linha de ônibus que passa duas quadras abaixo da entrada principal do condomínio. Isso fica a cerca de um quilômetro de distância da porta da minha casa.

Olha pelo lado bom: pelo menos não preciso pagar academia, já que caminho todos os dias e mantenho a forma sem nenhum esforço extra.

A distância de tudo também é minha justificativa eleita sempre que alguém me chamava para ir a algum lugar – seja para jogar videogame ou ir ao cinema, sei lá. Na maioria das vezes funcionava como uma desculpa, mas em algumas mais recentes eu gostaria de ter encontrado uma maneira diferente de ter dito o que disse.

Como quando o Renan me ligou, logo na semana seguinte à festa de formatura dos gêmeos, me convidando para ir ao shopping. Ou à sorveteria. Ou à casa dele.

Vamos só, sei lá, dar uma volta... Se tiver a fim, a gente vai no cinema.... – pelo telefone, ele emendou uma coisa na outra. – Ou tomar sorvete. Tá calor pra burro! Ah! Tem a piscina aqui em casa... Quero dizer, você tem a sua que eu sei, mas a daqui é maior. E tem companhia. Que tal?

Soltei um riso abafado, mas sabia que era só pra disfarçar a decepção.

Eu não tinha um centavo pra pegar ônibus. Pedir minha mãe estava fora de cogitação, porque ela estivera contando os trocados para ir na mercearia e comprar o mínimo. Meu pai ainda não tinha recebido o salário naquele Janeiro e ela estava apertada com as contas, que venciam a todo momento, quase como num piscar de olhos.

Eu não podia pedir dinheiro, ainda mais sabendo que havia gasto quase todas as minhas economias comprando um presente no Natal passado.

Logo, minha recusa não foi uma surpresa. Eu já tinha recusado viajar com ele no ano novo, a sair na semana seguinte, e também a ir a uma balada no último fim de semana, pra fingir que a festa do terceiro ano não existia. Acho que eu e o Renan fomos os únicos a não ser convidados...

Por dentro, eu até gostaria de ter ido a todas essas coisas (menos à formatura), mas, depois que elas passaram, ficaram sendo só mais uma das oportunidades que eu não tive acesso. Estou acostumada com elas.

Eu pago o taxi pra você vir. – foi a solução que ele arranjou, sem muito esforço.

– Renan... Você sabe-

Para com isso. Você é quem sabe que eu tenho o dinheiro; isso não vai me fazer menos rico, se é assim que você pensa. – ele respirou fundo, a boca praticamente colada no microfone do celular. – Olha, tá um saco isso aqui. Tô cansado de ficar olhando pra cara da minha mãe e de servir de babá pros meus primos menores. Além disso, o Joel disse que estava pensando em sair de casa. A mãe até autorizou. Podíamos nos encontrar com ele, faz tempo que não nos falamos pessoalmente. Desde o ano passado...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora