Setembro VII

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As meninas todas colocam um moletom, jaqueta, algo do tipo sobre a blusa do uniforme. Se formos pegos matando aula, a direção vai ligar para os nossos pais e provavelmente nos dará uma advertência. Não posso nem pensar nessa possibilidade, porque, se meu pai fica sabendo, a advertência não vai ser só escrita ou falada...

Pablo já está naturalmente disfarçado, com sua roupa preta, mas nem eu, nem o Renan temos moletom. Joel dá a ideia de usarmos a blusa do uniforme ao avesso e, dando de ombros, a gente tira e vira a roupa no meio da rua mesmo — é a euforia falando, eu me pego justificando.

Sem muita originalidade, ficamos uma meia hora sentados na grama da pracinha ali perto. Depois subimos para o shopping, uns dez quarteirões acima. Passamos numa loja de departamento, compramos chocolates e biscoitos, fazemos aquela algazarra de adolescentes em grupinhos, e finalmente nos aquietamos num cantinho da praça de alimentação. A mesa que escolhemos é redonda, há três cadeiras e uma bancada de madeira acolchoada do outro lado servindo de assento. Juliana, Mariana e Joel ocupam as cadeiras. Renan, eu, Karina e Pablo ficamos espremidos do outro lado.

A conversa flui sem assunto principal, só se desenvolve sozinha, sabe? O pessoal está mais curioso em saber como anda a vida do Joel no outro colégio e ele conta com satisfação que é bem menos puxado que o nosso, que está conseguindo se sair bem e até fez amizades lá.

— Claro que não é nada comparado com as que eu tenho aqui — ele pisca para o Renan e este devolve o gesto, sorridente. —, mas o pessoal é gente boa. Ninguém ficou me fazendo pergunta sobre a mudança de escola ou sobre a muleta, por exemplo.

— Então você não contou pra eles? — a Mariana deixa escapar, mas seus olhos vacilam e acho que entende que foi uma pergunta idiota. — Desculpa, Joel, não queria-

— Tudo bem. — ele a interrompe, encolhendo os ombros. — Não contei porque não acho que faça diferença.

Vejo as cabeças assentindo em silêncio e o clima fica tenso de repente. O braço do Renan está sobre meu ombro, me puxando mais para perto para poder dar espaço pra Karina e o Pablo, então eu me viro pra ele e pergunto, tentando afastar um pouco a nuvem negra da mesa:

— Acho que vou comprar sorvete. Você quer de quê?

Estendo a pergunta pro resto da roda e, antes que eu me levante, a Mariana se oferece para ir comigo. Nós dois nos afastamos e, de algum modo, a mesa volta a conversar normalmente — ouço até a gargalhada do Renan quando entramos na fila da sorveteria.

Ao meu lado, ela suspira e cruza os braços.

— Nossa, eu só sei estragar o clima das coisas... — não sei bem o que comentar de volta, então ela só continua: — Já não basta todas as vezes que chego no meio de vocês e fico mais parecendo uma vela que uma companhia de fato.

Minha testa se vinca automaticamente.

— Como assim?

Ela me olha de lado por um tempo antes de responder.

— Todas as vezes que eu interrompi você e o Renan só essa semana. — ela faz uma pausa e meu estômago gela em antecipação. — Vocês são um casal, não são?

Em todas as minhas hipóteses, nunca pensei que uma colega de classe fosse me questionar tão abertamente algo do tipo. Fico tão assustado com a pergunta que dou um passo para trás, pisando no pé de outra pessoa que está na fila. Peço desculpas umas três vezes seguidas, me enrolando e sentindo meu rosto se contorcer e esquentar. Mariana segura meu braço me impedindo de cambalear e acertar outro pé no meio do caminho.

— Ai, Daniel, não precisa nem responder. Sua reação já diz tudo. — já estou suando quando ela continua: — Eu só reparei nisso há pouco tempo... E não é como se todo mundo soubesse, eu só... reparo demais nas.... nas coisas do Renan.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora