Dezembro VIII

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Enviado em: quinta-feira, 26 de dezembro (17:15)

De: Daniel.henri.chagas @ mail.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetalk.us

Assunto: Merry X-Mas!

FELIZ NATAL, SANDER! Pra você, pra toda a sua família (um abraço na Suzy e na Anna!), pro seu namorado, pros seus amigos e pra todo mundo que você quiser!

Sim, vamos começar esse e-mail da forma mais esquisita possível, principalmente porque eu sei que você não liga tanto pra Natal assim quanto os brasileiros ligam. E porque eu também não costumava ligar muito, mas sinto que isso vai mudar com o tempo...

Obrigado pelas mensagens preocupadas e os updates da sua vida durante a última semana — não tenho tido tempo de ficar no computador pra gente fazer uma chamada de vídeo, mas o celular voltou a ser útil, afinal, né? E não se atreva a ficar esse tempo todo sem dar notícias de novo! Sei que metade da culpa foi minha, mas, você sabe: a vida anda acontecendo, e ela não tem sido boazinha comigo.

Apesar de que, ultimamente, posso dizer que acho que já fizemos as pazes. A vida e eu. Ela tem me tratado bem, na medida do possível. Acho até que ficou com uma certa pena do que já me fez passar, principalmente durante esse ano, porque essa última semana tem sido uma bênção. Sério, acho que não tem outra palavra pra explicar.

Você já sabe por alto, mas a noite de ontem, o Natal, eu passei na casa do Renan. Aliás, como também já sabe, estou praticamente morando lá, o que ainda é esquisito, mas... não sei, confortável. Conveniente.

Necessário.

Havia um prato na mesa do banquete de Natal reservado à minha pessoa. Foi algo bem simples; a mãe dele não quis que os parentes se reunissem, pelo contrário. Disse que só queria "a família" por perto porque aquele era um momento para agradecer por eles terem dado a volta por cima de tantas adversidades que tiveram nos últimos dois anos. Sabe, o divórcio dos pais do Renan, a saída dele "do armário", os problemas com os tios e outros parentes e etc. A mãe dele relembrou até o "acidente" do Joel no ano passado, o coma alcoólico, e agradeceu por ter filhos tão maduros (eu e o Renan trocamos um olhar meio desconfiado quando ela disse isso, porque nenhum de nós dois colocaria a mão no fogo pelo Rogério de jeito nenhum, masss....).

Foi um momento bem íntimo e me senti um intruso ali, porque nada daquilo me dizia respeito. Mas o Renan estava, o tempo todo, segurando minha mão sobre a mesa, enquanto a mãe entrelaçava os dedos nos do Rogs e nos dele. E daí ela, dona Fabiana Souza, disse que estava muito orgulhosa das pessoas com as quais os filhos dela conviviam.

Ela olhou no meu olho e disse que estava muito feliz porque eu era muito mais do que ela sequer poderia ter esperado pro filho dela. Uma pessoa "idônea, respeitosa, que merecia todas as coisas boas dessa vida e muito mais", com todas essas palavras. Eu sei porque eu anotei, no meu celular, pra nunca mais esquecer (e pra te contar, porque talvez você tenha que procurar o significado de "idônea" e eu não podia deixar essa oportunidade passar, confesso. Seu português está péssimo, convenhamos).

Um tempo atrás eu me lembro de ter me questionado se a mãe do Renan me consideraria um pessoa por quem o filho dela pudesse se envolver num relacionamento. Alguém que ela pudesse considerar isso, que pudesse dizer e contar pra outras pessoas que não era só "um amigo" do Renan. Alguém que ela se sentiria confortável o suficiente para falar de peito aberto sobre quem era o filho dela e o que ele havia escolhido — e ele havia escolhido a mim.

Mesmo sem saber que eu tinha me questionado isso por um bom tempo, ainda na época que éramos somente amigos, ela respondeu todas as minhas dúvidas com essa frase — e, claro, com todos os gestos anteriores e com os que estão por vir, eu imagino. O cara da banca de jornal agora me conhecia como "o namorado do filho da dona Fabiana" por ela mesmo ter me apresentado assim; o porteiro do prédio me chamava de "genro da dona Fabiana"; até a faxineira sabia meu nome!

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora