Agosto I

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Não sei como a segunda-feira chegou. Me arrasto escadas acima no colégio em silêncio. Meus olhos estão pesados porque quase não dormi nas últimas duas noites. É claro que estou exausto, mas faço um esforço para não demonstrar (tanto). A sala ainda está ligeiramente vazia na volta às aulas. Como vim sozinho de ônibus, procurei chegar mais cedo justamente para não ter que cumprimentar ninguém.

As carteiras ao redor da minha ainda estão desocupadas e eu suspiro de alívio. Não sei o que o dia me reserva, tenho medo de descobrir.

Resolvo não dar muita chance para a sorte, porém, e fico quieto, com a cabeça abaixada entre meus braços. Percebo a movimentação aumentar, mas finjo estar dormindo. Ouço a voz das pessoas que não quero ver, nem hoje nem nunca mais, e pressiono minha testa nos meus músculos, querendo que eles me engulam.

Não sei quanto tempo tenho que ficar assim. Planejo mentalmente levantar o olhar só quando a professora de química entrar na sala. Não queria estar ali, não queria ter que ouvir aquela risada, aquela voz bem perto, do meu lado direito pra ser mais exato... Não queria ter de vê-lo nunca mais na vida, essa é a verdade.

Noto alguém passando de leve a mão no meu cabelo, depois os dedos entram no meio dos fios e me sinto um pouco invadido. Sou obrigado a levantar a cabeça, mas só o suficiente para dar de cara com o Renan, abaixado na frente da minha carteira. Ele não diz nada por um minuto ou dois, não sei, deixando a mão escorregar pelos meus fios.

Um nó gigantesco se forma na minha garganta quando encaro aqueles olhos castanhos.

— Almoça comigo hoje — ele diz, eu só balanço a cabeça porque tenho a impressão de que vou começar a chorar se abrir a boca. Ele sorri. — Então aguenta firme aí porque sei que você consegue.

Ele sai da sala às pressas porque a professora chegou. E não sei de onde ele tirou essa ideia, mas, de alguma forma, acho que são suas palavras que me fazem sobreviver àquela manhã.

***

Na hora do almoço, não estou com a menor vontade de comer. Renan me espera na porta da minha sala e nós vamos juntos para a cantina em um acordo tácito de não almoçarmos no restaurante que mais da metade do colégio deve frequentar. Na fila para comprar, ele me pergunta o que vou querer e eu digo que estou sem fome.

— É sério que não vai comer nada? — ele levanta as sobrancelhas e eu afirmo sem muito entusiasmo. Renan revira os olhos. — Vou comprar um potinho de salada de frutas pra você.

E ele compra, mesmo eu insistindo pelo contrário. A gente se encaminha para sentar na quadra descoberta, debaixo do solzinho fresco que está fazendo, e eu espero que ele termine seu cachorro-quente para abrir a salada de frutas e pedir que divida comigo. Meu estômago parece enferrujado e sinto que não vai aguentar nem um mísero pedaço de laranja picada, mas eu tento.

Renan pega a colherzinha de plástico e leva uma porção generosa de salada à boca, me entregando o talher em seguida e insistindo para que eu faça o mesmo. Respiro fundo e imito seu gesto...

E então a gente se encara, faz uma careta e nos viramos para trás para basicamente vomitar. Renan cospe e xinga ao mesmo tempo em que começa a rir e a tossir. Quando menos espero, estou fazendo a mesma coisa. Tossindo e rindo e afastando o potinho de salada de frutas de nós dois.

— Cara, tem alguma coisa muito estragada aí dentro! — ele limpa a boca com a manga do moletom.

— Muito! — concordo porque sei que não é só minha boca que está ruim, pelo menos não aquele tanto! — Água. Preciso de um litro de água.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora