Março IV

77 21 5

Enviado em: sexta feira, 07 de março (23:01)

De: Daniel.henri.chagas@mail.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetal k.us

Assunto: RE:Skype

Não sei como começar esse e-mail, não sei qual assunto responder primeiro, na verdade. Acho que vou direto ao que era principal, então...

Nossa conversa no Skype foi, sim, necessária, como você achou que seria. Eu já tinha imaginado o assunto e não me surpreendi muito... Quero dizer, eu não estava preparado para a reação do Renan, então tinha criado um monte de situações diversas na minha cabeça. No fim das contas, quem ficou sem reação fui eu.

Desculpa.

Acho que sim, ele disse o que sentia, foi sincero. Depois que desligamos não houve qualquer comentário ruim ou lágrimas nem nada. Sério. A maturidade do Renan está me assustando. Acho que ele cresceu muito no último ano – aliás, tenho certeza. Você foi responsável por boa parte desse amadurecimento, eu acho, então obrigado por isso também. Eu não tenho o costume de dizer o quanto isso é importante, mas é, porque ele estando por perto e dizendo o que precisa ser dito faz toda a diferença.

Aliás, Renan anda dizendo muitas coisas que precisam ser ditas, de verdade, e que ninguém tem coragem de colocar pra fora. Às vezes essas coisas machucam, outras vezes elas só te fazem querer começar tudo de novo pra não chegar ao ponto de ele ter que dizê-las. Isso faz sentido pra você?

Ele me perguntou se eu ainda estou usando os aplicativos de pegação do ano passado. Suponho que devo contar isso pra você também, porque minha resposta foi sim. Na verdade, sendo totalmente sincero, quando vocês descobriram eu não achei que faria muita diferença. Digo, eu esclareci as coisas. Disse que tenho total consciência do que estou fazendo e dos riscos que estou correndo, sempre (ou quase sempre). Sei que vocês se preocupam, mas nunca me pediram pra parar porque, talvez, seria pisar num terreno difícil demais, né?

Então, eu não parei. Dei um tempo, diminuí algumas coisas, mas parar definitivamente não. O cara com que eu mais me encontro, o Otávio, aparece todas as vezes que eu chamo. Aliás, engraçado, ele aparece sempre nos momentos mais oportunos, quando estou explodindo de ansiedade ou confabulando maneiras de acabar com a minha vida do jeito que ela está agora. Acho que as duas (ou as três) coisas estão interligadas, no fim das contas. Ele me leva pro seu apartamento fora da cidade, eu esqueço do mundo em que vivo, simples assim.

Ultimamente, porém, não tenho sentido vontade alguma de encontra-lo, não fisicamente. Estar com Otávio me coloca pressão, porque sei o que ele espera de mim e também sei que venho falhando. Não sei o motivo, mas também tenho dormido cada vez menos por causa disso, pensando em o que devo fazer para me "empolgar" mais com esses encontros...

Quando chego em casa, depois do Otávio ou depois da escola, a sensação é a mesma. A vida continua a mesma. Isso anda me deixando desesperado, principalmente porque a maneira de muda-la está se aproximando (vestibular, faculdade, "vida adulta") e eu não sei o que fazer com ela. Não sei como encará-la ou se estou pronto para ela.

Sei que meus pais estão. Todos os dias ouço planos para o meu futuro que eu não gostaria de seguir, não por conta própria pelo menos. Mas como vou dizer isso em voz alta se eles depositam em mim todas as esperanças que nunca tiveram?!

Enfim, eu entendo o que você me disse. Entendo o que vocês dois disseram na hora do Skype, e também entendo o que o Renan jogou na minha cara depois que você desligou para aproveitar a vida com seu novo-futuro namorado. A questão é: eu sei que vocês dois estão dispostos a fazer muita coisa por mim, tanto que eu não sei nem medir nem agradecer. Eu não sei o que fiz pra nos aproximarmos desse jeito, mas é sério, sem isso eu acho que não estaria durando até hoje.

Só que, ao mesmo tempo, eu quero andar por conta própria. Eu tenho que ser capaz pelo menos disso, não é possível. Não quero depender de ninguém, não quero ser um estorvo maior na vida de nenhum dos dois – ainda mais considerando que você está a quilômetros de distância. Mesmo o Renan estando aqui perto o tempo todo, quero repetir o que ele me disse hoje: eu só quero que a gente seja feliz. Todos nós.

E pra eu conseguir isso, acho, tenho que aprender a levantar sozinho não importa a situação.

Com amor,

Daniel Henrique Chagas.

-------------------------------------------------------

Vamos levantar esse menino juntos ano que vem, sim? <3

Vejo vocês em janeiro!

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora