Dezembro VI

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Como velhos hábitos são difíceis de morrer, é claro que eu passei um bom tempo fantasiando a reação que o JV teria ao me ver com o Renan — eu e todo mundo que foi ali, naquela parque, naquele sábado. Mas parece que a vida tá disposta a me pregar peças, porque João Vítor não diz nada depois que a ficha caiu. Ficamos em absoluto silêncio na fila da roda-gigante.

É incômodo estar perto dele. Não sei o que ele está pensando, não sei se devo falar alguma coisa, não sei de nada.

E não saber me deixa extremamente aflito, em pânico até. As mãos suando, os tênis remexendo a terra batida, levantando poeira... Fazia um tempo que eu não me sentia assim e, olha, não tava com saudade dessa sensação não.

— O Joel parece bem — é a primeira coisa que ouço ele dizer, a voz serena, as mãos dentro do bolso da calça jeans e o olhar perdido na multidão ao nosso redor. — Ele se recuperou de tudo, eu acho...?

Engulo seco.

— Mais ou menos.... Mas sim, ele parece bem.

— Vocês mantém contato? Sei que ele não tá mais na escola...

— Sim, saímos de vez em quando. Eu, ele e o Renan. — comento meio no automático.

João Vítor vira o olhar pra mim e parece respirar fundo, porque vejo seu peito subir debaixo da blusa fina que usa. Está calor e a temperatura parece ter piorado minha suadeira, porque minhas mãos estão praticamente pingando.

— Olha, vou aproveitar que estamos só nós dois e vou falar de uma vez porque não quero estender isso muito, e sei que você deve tá pirando a cabeça, então... — ele suspira e tira as mãos do bolso, esfregando uma na outra. — Você sabe que eu sempre soube de você, né, Daniel? Não vamos ser hipócritas. E também não vou mentir dizendo que entendo perfeitamente, porque na real eu não entendo como isso funciona. Não entendo o que deu na cabeça do Renan e não entendo como as coisas acabaram como estão...

Sinto meu coração pesado, trotando dentro do meu peito. Estou pronto para receber o olhar de desprezo que minha memória carimbou na minha mente, daí o JV continua:

— Mas eu respeito a escolha de vocês. Tipo, isso não me afeta mais como eu acho que afetava, sei lá. Todo mundo tá tão de boa com isso que é até babaquice minha comentar alguma coisa contra, justo agora que eu voltei e quero meio que "fazer as coisas certas", sei lá. — ele faz aspas com os dedos no ar e eu solto a respiração que estava entalada na garganta. — Não quero ser o cara idiota de antes. Sei que isso não vai mudar muita coisa, nem vai fazer você ou eu termos opiniões diferentes sobre nós mesmos, né, mas... Sei lá, não quero voltar brigando contigo ou com ninguém. Quero ficar na paz, entende? E se você e o Renan escolheram isso e estão em paz, não sou eu que vou discordar, tá ok?

Estou prestes a formular alguma coisa coerente para responder quando percebo que ele ainda tem alguma coisa a dizer, então só aceno pra que continue e João Vítor desvia o olhar momentaneamente, passando as mãos no cabelo.

— Não vou dizer que entendo ou aceito completamente, mas não vou bater boca ou discordar por isso.

Ali está. Aquela palavrinha.

Engulo meus pensamentos de novo e, de certa forma, consigo sorrir pra ele. Digo um "tudo bem" e percebo que talvez esteja tudo bem mesmo. Eu não estava esperando nada mais que aquilo, e, na verdade, suas palavras me surpreenderam positivamente, de certo modo. Não é como se eu achasse que o JV fosse voltar militando pela causa LGBTQ, então...

Me abstenho de dizer que eu sinceramente não preciso da aceitação de ninguém mais, porque isso sim resultaria em algum bate-boca. Respiro fundo e simplesmente falo, de novo, que está tudo bem. E que estou feliz que ele tenha voltado com aqueles pensamentos. JV dá uma risada de lado e prefere não comentar mais nada. É melhor assim, pra nós dois.

Nossa amizade não existe mais — eu sei, ele sabe. Somos conhecidos, velhos colegas de escola e amigos de uma época em que não nos conhecíamos direito. Agora percebemos que não precisamos forçar uma convivência que não queremos, acho que somos maduros o suficientes pra isso. Pelo menos eu sou.

E nossa missão naquele sábado está mais que cumprida.

***

Antes de irmos embora, lá pelas tantas da noite, depois que o Renan andou em praticamente todos os brinquedos com o Joel e a Camila — e o Diego e o Marcos depois que os encontramos, o Pablo me fazendo companhia do lado de fora — o pessoal se reúne mais uma vez na entrada do parque para se despedir. Os pais do João Vítor nos agradecem pela "recepção acalorada" e todo mundo está leve e, bem, feliz.

Antes de ir, JV e os gêmeos estão empolgados falando alguma coisa que resolvem compartilhar com a galera em seguida, chamando todo mundo para uma roda enorme.

— Então, meus pais vão alugar um sítio no interior e convidaram todo mundo pra ir, tipo uma "viagem de formatura", já que eu não vou participar da formatura com vocês mesmo... — JV explica.

— E a gente já tava planejando uma viagem mesmo, né? — Rafa comenta, olhando pro irmão e pra Isadora, que troca um olhar com a Natália. — Então que tal a gente organizar direito e ir todo mundo junto?

— Opa, eu topo mais que topado! — o Caíque é o primeiro a se empolgar, arrastando uma onda de gritos de "topo" e coisas parecidas.

Só três pessoas ficam caladas: eu, o Renan e o Joel.

— Vocês tão convidados também, tá?! — João Vítor grita pra gente, pra que fique bem claro. — Se não puderem ou não quiserem responder agora, sem problemas. Só me avisem até segunda-feira pra eu falar com a minha mãe.

— Foi mal, JV, mas pra mim não vai dar — Joel se adianta, sem se incomodar muito em arranjar uma desculpa, ele fala a verdade: — Vou ficar com meus pais na casa dos meus avós. Eles provavelmente não iam gostar da ideia também...

Eu vejo quando ele lança um olhar enviesado pro Gustavo e pro Felipe, mas Renan interrompe algum possível comentário por parte de outras pessoas:

— É, eu também não sei. Acho que tenho outros planos. — e passa o braço pela minha cintura, me puxando pra mais perto.

— Bem, beleza, só me deem uma resposta final até segunda? — JV dá de ombros. — E a gente vai organizando com quem já tá meio que confirmado, ok?

Eles se empolgam ali mesmo. A Camila, que não estava presente na discussão por estar com o namorado, vem nos abraçar em despedida também, e nós aproveitamos a deixa para irmos embora, apertando a mão de todo mundo, menos a do Carlos e do Ítalo — até a Nayara o Renan cumprimenta, mas deixa meu primo no vácuo propositalmente.

Pegamos um carro num aplicativo pra irmos embora pro apartamento dele e, no banco detrás, eu solto um riso anasalado esquisito, que estava segurando há um tempo. Renan franze a testa e ri ao mesmo tempo em que pergunta o que está acontecendo.

— Não sei, hoje foi um dia muito estranho — eu digo, ele remexe as sobrancelhas concordando. — Mas foi bom. Não foi?

— Foi, não foi? — Renan sorri pra mim, apertando minhas mãos entre as dele. — Só que você perdeu metade da diversão ficando de fora dos brinquedos com o Pablo. Fala sério, Dani, você precisa de umas emoções radicais assim de vez em quando, sabe? O corpo pede e tal... É sério! Eu li isso em algum lugar, juro!

Ele continua tentando me convencer enquanto eu só dou risada.

Mal sabe o Renan que de emoções radicais, reviravoltas e frio da barriga, eu já tenho histórico pra uma vida inteirinha.

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Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora